
Belenense de corpo e alma marajoara, Ronaldo Silva é mais que um artista: é patrimônio cultural da sua terra. Não é à toa que a sua produção musical e sua história como compositor se confundem com o que vai no seu coração do alto dos seus 55 anos de idade e de amor à música. Lançando seu terceiro álbum fora do Arraial do Pavulagem, grupo que o consagrou, Ronaldo encontrou uma brecha na sua agenda para conversar com a Revista Leal Moreira. Muito ligado à religião e ao lugar onde nasceu, ele nos falou sobre sua crença de que educação, cultura e música devem andar juntas para criar uma juventude mais consciente de seus valores e história; e que os mais velhos tem muito a ensinar aos jovens – sobretudo a importância das tradições na formação da nova geração. Ronaldo também contou como as parcerias são essenciais no universo musical, juntamente com dedicação e esforço – peças fundamentais para construir uma sólida carreira musical, segundo ele. Entre essas e outras opiniões, também ficamos sabendo tudo sobre sua história e os novos rumos de sua carreira. Confira tudo no papo abaixo:
Revista Leal Moreira – Quem é Ronaldo Silva?
Ronaldo Silva – O Ronaldo Silva é um morador da floresta amazônica. Desde pequeno tocado pela música, porque a minha família é toda do Marajó, tanto por parte do meu pai quanto da minha mãe, e o rádio na vida das pessoas do interior é muito presente. Desde muito cedo escutei muita música. Ou no rádio, ou a minha mãe cantarolando, assoviando... Então devo à minha “velha” essa oportunidade de receber as primeiras mensagens sonoras. Eu sou uma pessoa que “lá atrás” tomou uma decisão: me debruçar para conhecer cada vez mais esse legado ancestral que mistura ritmos, poesia, o canto da floresta... E até hoje eu me concentro na natureza, nos meus amigos, nas histórias que eu escuto, em histórias que eu ajudo a fazer; e traduzo isso junto com parceiros e às vezes individualmente. São histórias que canto e conto ao mesmo tempo. Além disso, nasci em Belém, e morava numa vila cujo nome era São Jorge. Então a minha vida é cheia da presença dessa religiosidade popular. Eu sou muito ligado à quadra junina – pelo arraial e pelo fascínio que eu tenho por essa cultura de, espontaneamente, o povo se ligar com um astral superior de alguma maneira. Eu acredito que a minha sobrevivência artística se deu muito a partir de um mergulho dentro deste imaginário popular. Eu aprendi muito cedo que, para dar continuidade na minha caminhada, eu precisaria estudar muito, trabalhar muito, fazer bons amigos e organizar os meus sonhos. Sonhos como o Arraial do Pavulagem e meu filho, o João.
Revista Leal Moreira – Quando a música aconteceu para você?
Ronaldo Silva – Fazer música é uma coisa que a gente vive, num primeiro momento, de uma forma intuitiva. No meu caso, procurei aprimorar isso – escutando bons compositores, os nacionais e os daqui. Eu nunca esqueço que assisti o que talvez tenha sido a primeira edição do [projeto] Pixinguinha [evento cultural difusor da MPB], com vários artistas convidados em Belém, e tinha uma dupla cujo trabalho me encantou: era o Almirzinho Gabriel e o Tony Soares. Nunca me esqueço disso, de como eu fiquei motivado para um dia vir a fazer um trabalho do jeito que eles estavam fazendo. Depois eu comecei a participar de festivais. Num desses festivais, ganhei um violão como prêmio pelo segundo lugar – talvez o presente mais significativo da minha vida musical, da minha carreira de compositor. Eu, que naquele momento não tinha condições financeiras de ter um violão, não dormi. Amanheci tocando violão, batendo a corda. Eu devia ter uns vinte anos, era muito jovem ainda. Eu já tocava percussão, mas o violão trouxe a composição para a minha vida. Aquele instrumento dormia comigo, passou a fazer parte da minha vida. Hoje, antes de qualquer coisa, eu sou compositor. A pessoa tem que descobrir o seu potencial e aprimorar isso. Eu senti esse potencial em mim, ele apareceu de uma forma muito tímida. Mas eu sou muito esforçado, eu me dediquei muito para isso.

Revista Leal Moreira – Em 25 anos de um projeto de sucesso como o Arraial do Pavulagem, como e quando veio esse desejo do trabalho solo?
Ronaldo Silva – Não estou saindo do Arraial do Pavulagem. Eu estou apenas fazendo um registro diferente, que é o Balaio Sonoro. Estou a caminho de um disco novo. O pessoal pode esperar muitas músicas bonitas aí, música feita com sinceridade, carinho, dedicação. Para falar no clima do disco da Luê: Eu tô querendo onda! Eu trabalhei muito e agora eu acho que é hora de colher esses frutos, de colocar as músicas para gravar, compartilhar isso com o público gigantesco do Arraial, com a pessoas que gostam do meu trabalho, conquistar novas pessoas... E continuar trabalhando no Arraial, que é meu foco principal, mas também fazendo trabalhos com esses parceiros todos.
Revista Leal Moreira – Como foi o processo de produção deste terceiro disco solo?
Ronaldo Silva – Houve alguns critérios. O primeiro foi a sonoridade. A gente queria trazer um pouco da sonoridade de 15 anos atrás, e um pouco da sonoridade contemporânea. E está lá a Gaby Amarantos, com essa linha tecnológica de música eletrônica. Tem também a Luê Soares, que - eu acho - é mais um conceito contemporâneo, moderno de conceber as toadas de boi; e, ainda, uma coisa super tribal da Patrícia Barros... Mas tem também uma quadrilha que o Pedrinho Cavalero ganhou, que traz um sotaque bastante interessante aqui da nossa região. O disco foi decidido, as faixas, em função desse ambiente sonoro. A ideia era mesmo fazer um balaio. A gente teve que pegar essas sonoridades desses arranjadores fantásticos como o Ademar do Espírito Santo, o Luiz Pardal o Baboo [...] O balaio sonoro é, também, ao mesmo tempo, uma memória dessas tecnologias.
Revista Leal Moreira – A que você acha que se deve esse momento em que a música paraense vem ganhando bastante destaque?
Ronaldo Silva – Engraçado, a minha leitura é a seguinte: eu acho que quando o lugar onde tu nasces reconhece teu trabalho, teu trabalho é universal. Eu acho que a Gaby, como tantos outros artistas, encontrou uma maneira de projetar o seu trabalho e não existe outro caminho que não a dedicação, o talento, a competência, a concentração. Eu acho a Gaby concentrada. De todas as pessoas que conseguiram até hoje, na história do Pará - Waldemar Henrique, Walter bandeira, Nilson Chaves, Vital Lima, Jane Duboc, Sebastião Tapajós - nenhuma é preguiçosa. Um dia chove no roçado de todo profissional dedicado. Eu acho que é o momento da Gaby, da Luê, do Felipe Cordeiro, da Lia Sophia, do Arraial do Pavulagem, do Ronaldo Silva... É o momento de todo mundo! As pessoas têm que acreditar nisso. Se não dá pra tocar na rádio, vai pra rua. Nós fizemos isso no Arraial. Vai pra rua, Deus ajuda. A pessoa tem que ir com calma na vida, mas calma não significa acomodação. Tem que arregaçar as mangas. Quem é compositor tem que fazer muita música, e achar os profissionais sérios para poder ir junto. Esse é um resultado que a gente tem que acolher como nosso, ter a Gaby como uma pessoa que está lá, fazendo show fora com a Gang do Eletro, com todo mundo. O mundo tem lugar para todo mundo. Tem gosto para tudo, entende? Tem que pensar positivo, unir forças, a música paraense é uma só! É a música brasileira praticada aqui. Musica brasileira de qualidade.

Revista Leal Moreira – Você acredita que já deu para o Brasil conhecer um pouco mais o Pará, nos últimos anos?
Ronaldo Silva – Tem melhorado, à medida que houve nas pessoas esse impulso, essa vontade, essa dedicação de encontrar meios. Todo mundo fez um pouco para isso. Todo mundo chamou a atenção para esse lugar maravilhoso, rico, que há muito tempo vem pulsando música de qualidade. Se faz música de qualidade no Brasil inteiro. Se o padrão que viabiliza a veiculação dessas obras tem deixado a maioria ou parcelas dessas obras de fora, a gente precisa encontrar formas alternativas de divulgar. Música só acontece se alguém cantar. Ou na rua, debaixo do viaduto, na escada do prédio, no colégio... Eu acredito que as pessoas têm que ir ao mundo cantar.
Revista Leal Moreira – Os fãs do Arraial são muitos, e são fervorosos. Como é fazer parte de algo que envolve tantos jovens em um só movimento e canção?
Ronaldo Silva – É a sensação de recarregar as energias, porque são 25 anos que a gente não tem férias. Sai de um cortejo e entra em outro. A cada cortejo, o sorriso, a alegria no olhar das pessoas é o nosso fôlego. Vinha acontecendo uma coisa grave, que é a cultura de massa separando os velhos da criançada. Ora, todo esse legado da cultura popular, todos esses ensinamentos, esses conteúdos são na tradição passados pela oralidade. Então se você descola na prática cultural a criança do velho, ela deixa de escutar histórias. Já configuramos uma geração vulnerável por causa disso, porque não escutou conselhos. E fui uma criança que escutei histórias do Marajó, de vaqueiro, de visagem, e eu conto hoje história para o meu filho. Se depender de mim, o meu filho vai contar para o filho dele. O Arraial do Pavulagem é uma história. Contamos três histórias ao longo do ano. Na tradição, quando estávamos iniciando, as mulheres não tocavam instrumentos de percussão no boi bumbá. O Pavulagem trouxe isso. As mulheres sempre estiveram presentes na formatação lúdica no bordado. A força da mulher dentro da cultura popular é tudo. O que a gente quer é que o Arraial seja um lugar de encontro das pessoas, de compartilhamento de conteúdo, de conhecimento de tecnologias. Quando vemos as mulheres tocando alfaia, tocando onça, tambor, subindo no mastro, bordando, fazendo adereço, cantando, sentimos que estamos contribuindo para uma formação mais integral. A nossa intenção é que esta música praticada no Arraial e aqui fortaleça o respeito à natureza humana e à natureza que nos cerca. Que a gente tenha noção deste equilíbrio e do local maravilhoso que vivemos.
Revista Leal Moreira – O que os fãs podem esperar do “Balaio Sonoro”?
Ronaldo Silva – O paraense adora viajar, adora voltar de viagem, chora quando o amigo viaja e chora quando ele retorna... O Balaio Sonoro é esse momento onde a música me colocou perto dos meus amigos, parceiros, das melodias, das letras... Me colocou perto de intérpretes maravilhosos, que estão fazendo parte dessas 14 faixas. Me colocou do lado também de pessoas que tem o talento para gravar, para fazer arranjo, para tocar. Eu sou uma pessoa abençoada por ter os amigos que eu tenho, e peço para Deus sabedoria para conservá-los perto de mim. Eu tenho um trunfo na mão: uma sinceridade real no meu trabalho. E eu acho que essa sinceridade junta com a sinceridade dos meus parceiros e amigos, desses músicos todos que estão comigo. Aí a gente tem uma explosão de cores, música, trabalho, enfim.

