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Viva João Ubaldo Ribeiro!
Dono de uma obra em que se pode identificar a evidente herança da oralidade de sua terra natal, Itaparica, no litoral da Bahia, João Ubaldo Ribeiro é o autor de clássicos da literatura contemporânea nacional. São dele obras fundamentais como "Sargento Getúlio", "O Albatroz Azul" e "Viva o Povo Brasileiro", esta última a mais famosa delas, superando a marca dos 120 mil exemplares vendidos. Pelo conjunto da obra, recebeu, em 2008, o Prêmio Camões, em Portugal, a maior honraria da literatura em língua portuguesa. Profícuo, ele foi além do romance, gênero que o consagrou, e atuou também como cronista. Passou pela redação de jornais, escreveu contos, ensaios, livros infantis, traduziu alguns de seus próprios livros, ajudou na adaptação de algumas obras suas para a TV e o cinema e ainda dividiu, com Cacá Diegues, o roteiro de "Deus é Brasileiro", filme baseado em seu conto "O Santo que Não Acreditava em Deus”. Ao todo, ele teve mais de 20 títulos publicados em 16 países.
 
 
Sua invenção no campo da linguagem o levou a comparações com Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Era um preciosista da língua, um garimpeiro de palavras e expressões genuinamente brasileiras. Isso sem contar sua notória habilidade com a língua inglesa. Homem de profundo conhecimento da cultura erudita, ele se tornou um caso raro na literatura ao traduzir, ele próprio, dois de seus livros diretamente para o inglês. “Sargento Getúlio” e “Viva o povo brasileiro” são obras com uma complexa recriação linguística, que exige profundo conhecimento de seu tradutor, no caso de um não-nativo no idioma. Conhecimento este que ele possuía incontestavelmente. 
 
Primogênito do casal Maria Felipa Osório Pimentel e de Manoel Ribeiro, professor e político, Ubaldo teve uma infância privilegiada ao lado do casal de irmãos. Aos onze anos, a família mudou-se da Bahia para a capital de Sergipe, que ele definiu como uma espécie de “Suíça do Nordeste brasileiro”, com estrutura organizada e onde não havia televisão ou games para se distrair. “Fui criado em meio a livros em uma casa imensa, a primeira de que tenho lembrança, em Aracaju. Tinha livro até na cozinha. Até os seis anos de idade, eu ainda era analfabeto. Meu pai, que era um humanista, não conseguia lidar com a ideia e contratou um professor particular”, recorda. O menino aprendeu a ler rápido, embora já conhecesse a maioria das letras, de tanto conviver com os livros do pai espalhados por todo canto. Entre suas primeiras leituras, estavam Dom Quixote, William Shakespeare e Monteiro Lobato.
 
Titular da cadeira número 34 na Academia Brasileira de Letras, ele estaria agora completando 75 anos. O processo da entrada na ABL teve a participação de Jorge Amado como cabo eleitoral, seu amigo e conterrâneo. Engana-se, porém, quem presumir que o autor era dado a formalidades em seu dia a dia ou seguia métodos rígidos em seu processo criativo. Chegou a garantir em diversas entrevistas, inclusive em conferências na própria ABL, que começava um romance sem saber muito bem para onde ir, sem planejar o destino dos personagens. Quando esteve no centro do Roda Viva, em 2012, explicou por que não acredita ter “uma cara de escritor” habitual. “Geralmente, as pessoas associam a imagem de um escritor a um ar solene, como um Machado de Assis. Eu costumo andar de bermuda, camisa e chinelos. Quase não apareço de paletó”, simplificou. Tampouco gostava das definições dos críticos literários para sua obra, das tentativas de aproximá-la a uma “busca pela identidade nacional”. Não, respondia ele. Tratava-se apenas de um romance: “muitos dizem que ‘Viva o Povo...’ é um projeto em que pretendo recontar a história da população brasileira sob o ponto de vista do oprimido, coisa que nunca me ocorreu na vida”.
 
Ubaldo era também amigo de Rubem Fonseca, com quem adorava almoçar semanalmente, para falar de todos os assuntos possíveis, exceto literatura. Outro amigo de longa data, ainda dos tempos de escola na Bahia, foi o cineasta Glauber Rocha. A amizade era para ele um bem supremo, "a forma mais importante de se amenizar a solidão própria do homem". Em entrevista ao programa de televisão Sangue Latino, ele a definiu como “um dos sentimentos mais consoladores que existem, porque lhe dá a ideia de ter um companheiro de barco, ao mesmo tempo em que dá ideia da infinita distância que ainda assim existe entre os dois”.
 
Praticamente um item indispensável de seu “uniforme do dia a dia”, as sandálias havaianas eram suas companheiras na ida até o bar Tio Sam, o preferido do escritor no Leblon, Zona Sul do Rio, região onde morava. Segundo funcionários do bar, o escritor continuou frequentando o local mesmo depois de parar de beber – por motivos de saúde, ele precisou abandonar o uísque e adotou o guaraná diet. Infelizmente, não conseguiu um substituto para o tabaco, vício que alimentava quase compulsivamente. O ex-boêmio tinha inclusive um copo cativo, que era exibido com orgulho pelos atendentes. Tudo para não perder o hábito da prosa com os amigos nos finais de semana. Quem o via por lá garante que ele era um piadista de riso fácil e trato humilde, que fazia todo mundo rir antes de deixar a mesa da calçada, onde gostava de se sentar, e ir embora. 
 
As histórias assinadas por João Ubaldo se passam, praticamente em sua totalidade, na sua cidade natal. Mesmo que, por mais de duas décadas, ele tivesse residido no Rio de Janeiro, a cidade onde veio a falecer, em uma madrugada de julho de 2014, em sua casa. Por não confiar plenamente em seu “carioquês”, ele hesitou em ambientar suas tramas em terras cariocas. Até o seu último projeto, que foi lançado postumamente, “Noites Lebloninas”. A ideia era fazer um livro de contos sobre o seu bairro. Mas o autor não chegou a concluir as histórias previstas no projeto inicial, que foi lançado com os dois contos (“O cachorro Falafina e seu dono Dagoberto” e o “Noites lebloninas”) que ele escreveu antes de partir, por embolia pulmonar, aos 73 anos. Ubaldo chegou a cogitar que o narrador fosse um carioca autêntico. Mas voltou atrás e decidiu que seria uma espécie de alterego: um baiano, radicado no Rio e apaixonado pela cidade. Apesar da desconfiança de que Ubaldo não aprovaria a obra ser lançada assim, inacabada, a família preferiu isso a deixar os contos inéditos. Ele, o escritor, também não apreciava homenagens póstumas. Mais uma vez, ele será contrariado, agora. Viva João Ubaldo Ribeiro!
 
Box:
Fernanda Torres adentra o palco a passos firmes. De salto alto, roupas em tons vibrantes e batom vermelho, ela interpreta, com um acentuado sotaque baiano, CLB, iniciais de uma mulher libertina que, aos 68 anos, revela pública e escancaradamente detalhes de suas aventuras sexuais sem ruborizar ou usar palavras atenuantes. “Ela não fala daquele jeito para doutrinar ninguém, nem para chocar. Ela apenas nunca se sentiu reprimida na vida. Dá simplesmente o testemunho de uma mulher que foi livre”, definiu Fernanda, em entrevista.
 
O monólogo A Casa dos Budas Ditosos é fruto da adaptação feita pelo diretor Domingos Oliveira para o romance de João Ubaldo. A convite da editora Objetiva, coube ao romancista escrever sobre o tema “Luxúria” para a coleção Plenos Pecados, sobre os sete pecados capitais. Já na apresentação da obra, ele deixa uma questão em suspenso. “Os originais deste livro foram misteriosamente entregues por um desconhecido ao porteiro do edifício onde trabalho, acompanhados de um bilhete assinado pelas iniciais CLB”. Seriam as memórias desta senhora devassa um relato verídico ou tudo não passa de uma brincadeira do autor?
 
Nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro, a personagem alega que jamais se furtou a viver - com todo o prazer e sem culpa - as infinitas possibilidades do sexo. No decorrer da peça, recorda aventuras ao longo de toda sua vida, da Bahia ao Rio de Janeiro, com uma escala em Los Angeles. É impossível ficar indiferente à seleção de homens e mulheres que a baiana evoca. “A narrativa de Ubaldo contém nítida importância filosófica, disfarçada em folhetins de peripécias sexuais. O personagem sem nome é sem dúvida uma deusa, com uma liberdade divina almejada na imaginação por todos nós”, teoriza Domingos.
 
Ubaldo acompanhou a transposição do livro para o palco e assistiu ensaios. Acabou se tornando amigo da atriz. Na ocasião de sua morte, ela escreveu um depoimento na Folha de São Paulo em que fala de sua pessoa e descreve como é encenar o seu texto. “Cada vez que narro a pornopopeia, me surpreendo com o ritmo da partitura, com as pausas, os apartes, as conclusões, o humor delirante, a delicadeza, o lirismo e a redenção do texto. É como estar com Ubaldo de novo; e quem esteve, sabe do poder encantatório, dos volteios de raciocínio, das cortadas ágeis e do falar pausado, quase anedótico”.
 
No palco, a atriz tem apenas a companhia de poucos objetos cênicos. Entre os quais, o livro “Nossa Vida Sexual”, de Fritz Khan, da biblioteca do avô da personagem (obra citada no romance e que a produção encontrou, por sorte, em um sebo), de onde foi extraído o trecho que alimenta a fantasia da personagem sobre o momento do seu desvirginamento. O trecho é lido em uma gravação em off com a voz marcante de João Ubaldo. Estão lá também os dois Budas Ditosos, referidos no título. Trata-se de uma estatuazinha em miniatura de dois budinhas praticando sexo “essas coisas milenares, de Chinês”.
 
 
TRECHO DO LIVRO QUE DESENCADEIA A FANTASIA DA PERSONAGEM PRINCIPAL SURGE EM OFF, NA VOZ DE JOÃO UBALDO.
 “E então chega o momento tão ansiado. Sem pronunciar uma palavra, ele fecha a boca da donzela com um beijo decidido entre seus bigodes másculos, insinua seus quadris, delicada mas firmemente, entre as coxas dela e dirige a glande inturgescente para o hímen, então trêmulo e lubrificado pelos fluidos naturais da vagina. Resoluto, ele se assegura, às vezes, com a ajuda das mãos, de que está no ponto certo e então, enquanto ela dá um gemido abafado, entre a dor e o prazer da fêmea que finalmente cumpre seu papel biológico, penetra-a com um só impulso vigoroso, abre-lhe mais as pernas, inicia um movimento de vai-e-vem profundo e, finalmente, derrama-lhe nas entranhas o morno líquido vital, sem o qual ele não é nada, ela não é nada”. (A Casa dos Budas Ditosos. Editora Objetiva. 1999)
 
VIVA O POVO BRASILEIRO
O livro se volta às origens do Recôncavo Baiano para recriar quase quatro séculos da história do país por meio da saga de múltiplos personagens. “Viva o Povo Brasileiro” se desenvolve em grande parte no século XIX, mas também viaja a 1647 e avança até 1977. Nele, realidade e ficção se misturam para criar um épico brasileiro com passagens heróicas e cômicas, tendo como pano de fundo momentos decisivos para a história do país, como a Revolta de Canudos e a Guerra do Paraguai.
 
UM BRASILEIRO EM BERLIM
Em 1990, o escritor foi convidado por um programa de intercâmbio alemão a realizar um roteiro literário pelo país. Assim que chegou à Alemanha, ganhou uma coluna no jornal Frankfurter Rundschau. O resultado foram crônicas bem-humoradas reunidas no livro Ein Brasilianer in Berlin, sucesso editorial no país de Goethe. A obra faz um registro impiedoso e divertido da experiência de ser brasileiro num país culturalmente tão diverso.
 
 
SARGENTO GETÚLIO
Ambientado no Nordeste dos anos 1950, narra a história de Getúlio Santos Bezerra, homem de confiança de um coronel de Sergipe, que precisa levar um preso político até Aracaju. No meio do trajeto, uma reviravolta política faz com que as ordens se alterem. Desconfiado, determinado a cumprir à risca o serviço que lhe fora dado, o sargento parte em uma jornada que não terá outro destino a não ser o da violência e da morte.
 
 
O ALBATROZ AZUL
Vida, morte, renovação. Temas universais que são o eixo em torno do qual se desenrola a trama simples deste belo romance. É a história de um homem muito velho que, apesar de detentor da sabedoria trazida por todos os seus anos de existência, ainda busca apreender algum sentido na vida. Narra a história de Tertuliano, filho de um proprietário de terras que se relacionava e teve filhos com duas irmãs. Para não perder uma herança, o patriarca precisa se casar com uma delas.
 
 
NOITES LEBLONINAS
Além de consagrado como um dos maiores romancistas da literatura brasileira, Ubaldo era também preciso na narrativa curta. "Noites Lebloninas" é um exemplo dessa outra faceta. Este projeto, inacabado, seria composto por uma série de textos sobre a boemia carioca. Mas antes de sua morte, o escritor terminou apenas dois dos contos previstos. Eles revelam, porém, como ele era um mestre na arte de contar uma boa história. Festas intermináveis, porres quase fatais e bebedores singulares. Os cenários e os personagens do Baixo Leblon ganham vida nestes contos saborosos, narrados por um porteiro que tudo vê e tudo escuta. 
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