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Vinte e sete metros assustadores separam a água e a área de salto da plataforma. No mínimo. Dependendo do local, a distância pode ser ainda maior e chegar a incríveis trinta metros, altura equivalente a um prédio de dez andares. Seja em um lago, rio, mar ou mesmo em uma piscina, essas são características básicas do high diving, esporte derivado dos saltos ornamentais e que tem um paraense como principal representante no Brasil. Em pouco mais que um piscar de olhos, o atleta franzino – carinhosamente conhecido pelos mais íntimos como “fiapo” –, salta em queda livre, exibindo acrobacias precisas e com uma única certeza: “São três segundos em que eu vivo completamente. Três segundos livres mesmo. Só de liberdade”.
 
A fama de Jucelino Alves Lima Junior talvez seja maior além-mar do que em território nacional. De origem humilde, assim como a maioria dos nossos esportistas vencedores, o paraense encantou plateias ao redor do planeta, antes de ser reconhecido na própria cidade. Aos poucos, os olhares curiosos, os pedidos de autógrafos e fotos entram na rotina do rapaz tímido. Algo que ele nem poderia imaginar oito anos atrás.
 
A hiperatividade é a principal característica do Jucelino. E foi sempre assim. “Eu costumava fugir de casa, quando era criança, pra fazer acrobacias. Fazia nos gramados e de lá fui pra serragem. Foi onde eu encontrei outros garotos e a gente acabou formando uma turma, umas equipes de acrobacias.” A habilidade natural ajudou a transição para outros dois esportes: a capoeira e a ginástica artística (naquela época, ginástica olímpica). “Como eu matava aula pra ficar brincando, saltando no gramado, a minha professora de educação física indicou que eu viesse pra UEPA (Universidade do Estado do Pará), onde existia a ginástica olímpica. Conforme a minha frequência na ginástica, eu teria minhas notas em educação física.” Mas os aparelhos de ginástica não conseguiram atrair tanto aquele menino curioso quanto a piscina.
 
Enquanto a entrevista, feita na arquibancada do parque aquático da Escola Superior de Educação Física (ESEF) da UEPA, transcorria, Jucelino transbordava em lembranças. “Pelo fato de eu ser de periferia, até meu primeiro banho de piscina foi aqui. Aquela coisa de criança, fugindo dos vigilantes e pulando na água de roupa e tudo, só pra estar na piscina.”
 
Até que não teve jeito: ele foi pra água. No caminho diário até a sala de ginástica da ESEF, o garoto passava em frente à piscina. Jucelino então decidiu: faria acrobacias antes de mergulhar naquela piscina ainda proibida. Corajoso, chamou o técnico da equipe de saltos ornamentais e garantiu que era um saltador em potencial. “Eu falei que eu poderia fazer um salto ali. Ele disse que se eu conseguisse mesmo, teria minha vaga na equipe de saltos ornamentais. Eu acabei fazendo o salto, mesmo sem saber nadar, sabendo apenas ‘boiar’, mas consegui.” O menino ganhou a confiança do técnico Roberto Ruffeil, dando início a uma parceria que já dura quinze anos.
 
A confiança é mútua e tão grande que Jucelino abre mão de treinar em locais que são referências para saltos no Brasil. “Prefiro vir pra Belém. Tenho outras oportunidades, outros locais de treino, como Fluminense, Pinheiros. Como ele é meu treinador, a gente pode trocar mais ideias juntos”, garante. Mas esses momentos são raros. Sem poder acompanhar Jucelino nas viagens, Ruffeil e o pupilo recorrem à tecnologia para colocar os treinos em dia. “Tem o Skype, o Facebook, a gente sempre conversa. Usamos até o Whatsapp. Eu vou sempre mostrando os vídeos dos meus saltos e ele vai me dando as dicas de entrada, saída ou da figura no ar”, revela Jucelino.
 
Mas essa parceria ficou suspensa durante algum tempo. Entre 2006 e 2013, o atleta das piscinas virou artista em parques. Recém-aprovado no curso de matemática, Jucelino largou tudo no Brasil e foi tentar a sorte com shows aquáticos na Europa. Durante quase uma década, viveu na França, na Alemanha e na China. Aprendeu oito línguas, entre elas o búlgaro e o cantonês. Ainda durante a vida circense, conheceu o high diving e passou a competir eventualmente no Circuito Mundial dos saltos radicais. A paixão foi imediata e no momento em que precisou optar, largou a arte e voltou pro esporte.
 
No high diving, os atletas priorizam a entrada na água com os membros inferiores, uma vez que perna e quadris são mais resistentes aos impactos do que os braços e os ombros. A atenção é total e qualquer descuido durante o salto pode custar caro. “Não é pra qualquer um. Ele é completamente perigoso. A gente costuma falar que ele é 80% mental e 20% físico.”
 
 
Movimentos rápidos e precisos. Beleza e perigo lado a lado. “Quem assiste deve pensar: ‘esses caras são loucos’”, imagina Jucelino, citando a própria família. “Meus pais são muito religiosos. Acho que eles pedem muita força divina pra que não aconteça nada comigo. Eles oram bastante”, revela.
 
A ligação entre os pais e o filho é muito forte. Aposentados, Dona Rosilda e Seu Jucelino são fundamentais para permanência do atleta em Belém. O cidadão do mundo abriu mão de muita coisa para estar aqui. “Eu digo que depois dessas viagens, de toda essa minha trajetória de vida, pude provar tanto da pobreza quanto da riqueza também. Hoje o que vale pra mim é estar feliz, estar ao lado deles, ter esse calor humano deles que é puro. Isso pra mim é o que vale na vida hoje”. A casa é a mesma onde os cinco filhos nasceram e foram criados. O asfalto, timidamente, vai chegando ao local, frequentemente afetado por alagamentos. Local humilde, mas de onde ninguém sai. “Já tentei falar várias vezes, ‘bora embora’. Já comprei apartamentos  pra tirá-los de lá, mas eles não querem”, conta o filho dedicado, que apesar de possuir apartamentos na capital, acabou se rendendo à vontade dos pais e reformando a casa onde os três continuam morando. “Não tem jeito. É o que eles gostam. Entendi que assim como eles me deixam viver livre para fazer o que eu gosto, eu preciso fazer o mesmo em relação a eles”.
 
Esse “fazer o que gosta” do Jucelino alcançou agora um novo patamar. Depois de se tornar a sexta modalidade sob a tutela da FINA (Fédération Internationale de Natation), entidade máxima dos desportos aquáticos, o high diving ganhou também o status de esporte olímpico. A partir de 2020, em Tóquio, no Japão, os saltadores radicais vão em busca da glória olimpiana. Até lá, a preparação vai ser longa, possivelmente com um capítulo especial nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, no ano que vem. “Provavelmente vai ser apresentado no Rio. Mas em Tóquio-2020, vai estar oficialmente no programa”, orgulha-se o saltador, que também se considera parte importante do crescimento da modalidade em todo o planeta. “Me sinto feliz por fazer parte dessa história. Continuo fazendo parte dessa história, fazendo a história, na verdade”, reflete, enquanto pensa no passado, presente e futuro.
 
E o futuro do high diving e do Jucelino parecem um só. Aos 31 anos, mesmo sem pensar em aposentadoria, o atleta já considera a possibilidade de também se tornar técnico. A ideia é criar uma Organização Não-Governamental que promova o esporte para crianças carentes. Ele acredita no potencial de cada menino e menina que dão os primeiros saltos na ESEF. “Tem muito moleque bom aqui. Até Tóquio, poderíamos preparar gente daqui também”, garante.
 
Mas Tóquio e até mesmo o Rio de Janeiro, ainda são um futuro distante. No presente, em 2015, Jucelino tem uma agenda cheia. Além do campeonato mundial, em agosto, na cidade de Kazan, na Rússia, o paraense ainda vai subir em oito diferentes plataformas ao redor do planeta, todas integrantes do circuito mundial do esporte, patrocinado por uma marca de bebidas energéticas (Red Bull). Um ano cheio e que pode enchê-lo de moral também. O sonho e a luta são pelos dois títulos. “Dá pra sonhar sim. Dá pra chegar lá. Até porque já venci os caras. Já venci todos eles. Então dá pra sonhar sim em vencer o Campeonato Mundial e o Circuito Mundial”, conclui o nosso sonhador voador.
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