
Ninguém passava ileso à "presença viva" de Waly Salomão (1943-2003). Todas as pessoas que conviveram minimamente com o poeta e compositor baiano guardam histórias maravilhosas de situações marcadas por seu humor sedutor e anárquico. Do alto de sua inteligência e personalidade, ele reinou contra as convenções, sempre alheio às "bulas e posologias prévias", das quais escapava "escorregadio que nem baba de quiabo".
Poeta polifônico, Waly trabalhou com música, teatro e cinema e ergueu o castelo de uma obra e imprescindível para a cultura brasileira há mais de quatro décadas. O livro "Poesia Total", que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, reúne, pela primeira vez, a poesia completa do autor de "Gigolô de Bibelôs" (1983), "Algaravias: Câmara de Ecos" (1996), "Lábia" (1998), "Tarifa de Embarque" (2000), entre outros títulos, além de letras de canções jamais gravadas e textos assinados por nomes como Paulo Leminski, Antonio Cicero, Armando Freitas Filho e Francisco Alvim.
Tenho fome de me tornar em tudo que não sou
Waly Salomão nasceu, "com o auxílio das mãos da parteira Mãe Jove", em Jequié, interior da Bahia, no dia 3 de setembro de 1943. Filho de um imigrante sírio com uma sertaneja, ele esteve em contato com a literatura desde menino.
Em uma entrevista concedida a Heloísa Buarque de Hollanda logo que assumiu a Secretaria Nacional do Livro, em 2003, Waly contou que a rotina de sua casa incluía discussões, entre sua mãe e seus irmãos mais velhos, sobre clássicos como "Guerra e Paz", de Tólstoi. "Aquelas páginas faziam com que eu transcendesse a coisa tacanha, acanhada, da vida de cidade do interior", revelou.
Por seu "imaginário inchado de filho de imigrante", ele temia ficar limitado a um só lugar e, mais ainda, aprisionado em si mesmo. Estava "sempre voraz atrás de novas camadas de leituras, de interpretações do mundo, inconclusivas e inconcludentes". Em "Novíssimo Proteu", o poeta lançou a pedra de toque: "a chama da metamorfose me captura".
De fato, por toda a vida, Waly Salomão encarou o mundo como um grande teatro e, com sua falange de máscaras, desempenhou os mais diferentes papéis. Quando necessitava fugir do "cotidiano estéril / de horrível fixidez", a poesia era a saída de emergência.
Em uma seção do livro "Gigolô de Bibelôs" (1983) intitulada "Teste Sonoro", Waly afirma que foi "um pequeno qualquer duma cidade pequena" e depois nasceu "de novo numa cidade maior". No caso, a "cidade maior" foi Salvador, onde concluiu o segundo grau e formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em seguida, sem jamais ter exercido a profissão, passou temporadas em São Paulo e nasceu de novo no Rio de Janeiro, "dum modo completamente diverso do nascimento anterior". O autor de "Pescados Vivos" permaneceu na Cidade Maravilhosa até a sua morte, em 5 de maio de 2003, vítima de um tumor no intestino. "Conheço o Rio de Janeiro como a palma da minha mão cujos traços desconheço", escreveu.
Sobre a relação do poeta com a cidade, Antonio Cicero lembra que, quando estavam procurando apartamento para comprar, a única exigência de Waly para sua mulher, Marta Braga, era que o imóvel tivesse vista para o Cristo Redentor. "Marta diz que poderiam encontrar o melhor apartamento, mas, se não tivesse vista para o Corcovado, Waly não aceitava!", divertiu-se o amigo, acrescentando. Esse episódio pode ser interpretado como "uma declaração de amor ao Rio".
Para onde a poesia em pane me chamusca
Com voz de trovão e gestos de furacão, Waly Salomão trabalhou com teatro e música antes de estrear como poeta, em 1972. O primeiro livro de poemas, "Me Segura Qu’Eu Vou Dar Um Troço", foi escrito durante um período de reclusão no Carandiru, em São Paulo. "Na época da Ditadura, o mero porte de uma bagana de fumo dava cana. E eu acabei no Carandiru, por uma bobeira", declarou em 1996, em uma entrevista ao "Jornal da Tarde". A prisão, no entanto, foi necessária para libertar o poeta. "Teve um texto que escrevi no Carandiru, chamado "Apontamentos do Pav Dois", que parece um hip hop avant la lettre. Ali, representou um momento de deflagração da aventura de escrever. Foi ali que eu me concentrei e me liberei como escritor. Mostrei esse texto para diferentes pessoas, mas ninguém dava retorno", contou, em outro trecho da entrevista concedida a Heloísa Buarque de Hollanda em 2003.
Foi o artista plástico Hélio Oiticica, figura central para o começo da carreira literária de Waly Salomão, quem reconheceu a qualidade daquele texto. Hélio realizou um trabalho de diagramação em "Apontamentos do Pav Dois", mas o material acabou nas mãos da censura militar. Em 1996, Waly publicou o livro "Hélio Oiticica: Qual é o Parangolé?" (relançado pela Editora Rocco, em 2003), que discorre sobre a arte e sobre as experiências poéticas e artísticas trocadas com o amigo nos anos 1970. "O convívio com Hélio Oiticica foi o estímulo mais determinante para o surto de minha produção poética", afirmou à Folha de São Paulo, em 2001.
Sobre o seu primeiro livro de poemas, "Me Segura Qu’Eu Vou Dar Um Troço", Waly advertiu que não deveria ser lido com "olho-fóssil" e sim com "olho-míssil". Antonio Cicero discorre, no ensaio "A falange de máscaras de Waly Salomão", sobre como essa dica é valiosa para a fruição de toda a obra do poeta baiano. Em "Me Segura" e nos trabalhos posteriores, Waly "reafirma sua concepção da poesia como libertação do confinamento no mundo convencional da identidade", escreveu o filósofo.
A relação de amizade entre Antonio Cicero e Waly Salomão começou em 1975. "Fiquei inteiramente fascinado. Além de sua exuberante inteligência e sensibilidade, encantou-me a sua reação a qualquer situação em que farejasse caretice, quadradice, tartufice", disse o amigo, por e-mail. "Embora eu tivesse tanto horror quanto ele a tais situações, normalmente minha timidez me fechava em copas. Já Waly, com seu espetacular senso de humor, imediatamente conseguia tornar evidente o caráter ridiculamente farsesco e isso sempre foi imensamente liberador", assegurou Cicero.
Nada me prende a nada
Antes da publicação de "Me Segura Qu’Eu Vou Dar Um Troço", Waly Salomão realizou o projeto editorial mais importante do período pós-tropicalista (1969-1972): a revista "Navilouca – Almanaque dos Aqualoucos". Concebida em parceria com o poeta Torquato Neto, a revista reuniu textos de expoentes das artes plásticas, da poesia e do cinema de vanguarda, como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Décio Pignatari, Stephen Berg, Augusto de Campos e Haroldo de Campos.
Luciano Figueiredo foi quem idealizou, em conjunto com Óscar Ramos, o projeto gráfico da revista "Navilouca". Artista plástico, designer e curador, natural de Fortaleza, ele está por trás de inúmeras capas de discos e cenografias de espetáculos e filmes daquela época, entre os quais "Gal a Todo Vapor", de Gal Costa, e "O Gigante da América", de Júlio Bressane.
Por e-mail, Luciano contou que a "Navilouca" surgiu em um contexto de grande frustração editorial com várias publicações que não passavam do segundo número, fosse por proibição da Ditadura Militar ou por falta de recursos. "A "Navilouca" veio graças ao editor Lucio Abreu, dono da Editora Gernasa. Ele era amigo de Torquato e apostou no projeto, que agrupava músicos, poetas, cineastas, fotógrafos, artistas plásticos", escreveu.
O título "Navilouca" foi dado por Waly Salomão, baseado em um texto medieval de Sebastian Brant, intitulado "Stultifera Navis" (1494). "É um texto que versa sobre prática da época de confinar em navios aqueles considerados loucos, dementes, insanos, profanos, degredando-os ao mar", explicou o artista plástico.
Impressa em um formato grande, de 27 x 36 cm, a "Navilouca" nunca foi reeditada. Esse fato contribuiu para que a revista se tornasse um dos mais cobiçados produtos do efervescente período da contracultura no Brasil. Em um texto escrito para a publicação, intitulado "Planteamiento de cuestiones", Waly exalta "novas formas de armação" e "novas formas de alargamento não fictionalda escritura", em oposição ao "temor do olho do outro". A intenção era rechaçar o "bom gosto" e as categorias obedientes aos valores oficiais do circuito de arte da época.
Apesar de ter sido planejada desde 1971, a revista "Navilouca" só foi lançada em 1974. O hiato ocorreu devido à morte prematura do poeta Torquato Neto, em 1972.
Eu não preciso de muito dinheiro
"Quando estava duro, Waly sempre reclamava: onde eu estava com a cabeça quando escrevi que não preciso de muito dinheiro? Era como se, por causa desse verso, ele tivesse rogado uma praga a si próprio", conta Antonio Cicero, aos risos, referindo-se à canção "Vapor Barato". Composta no início dos anos 1970 e considerada um hino da contracultura no Brasil, essa foi a primeira letra escrita pelo poeta baiano em sua frutífera parceria com Jards Macalé. A balada marcou o histórico show "Gal a Todo Vapor" e ganhou registro no LP ao vivo "–FA–TAL– Gal a Todo Vapor" (1971), ambos dirigidos por Waly Salomão.
"Na primeira vez que eu vi a cidade de Salvador, eu estava em cima de um navio que se chamava "Vapor". Eu via a cidade como um presépio iluminado", contou o letrista no programa "Todos sons todas letras", exibido em 2002 pelo canal "Multishow". Apesar de ser muito ligada a um período específico, "Vapor Barato" atravessa os anos incólume. Em meados da década de 1990, a canção marcou a trilha sonora do filme "Terra Estrangeira", de Walter Salles, e ganhou regravação do grupo O Rappa. Em 2012, voltou à tona em um dos momentos mais vigorosos do show "Recanto", de Gal Costa, dirigido por Caetano Veloso.
Depois do "–FA–TAL–", a parceria bem-sucedida entre Gal e Waly Salomão continuou no show "Índia" (1973) e nos álbuns "Bem Bom" (1985) e "Plural" (1989). No último, aliás, o poeta foi o responsável pela aproximação da cantora com a percussão do grupo Olodum. Além de Gal, a carreira de Waly Salomão como diretor artístico também incluiu parcerias com Gilberto Gil, Marina Lima e Cássia Eller.
O contato com Marina se deu devido à amizade de Waly com Antonio Cicero, irmão e principal parceiro da cantora carioca. "Eu o admirava muito, mas nunca tivemos uma relação tão direta. Na maioria das vezes em que eu estive com Waly, o Cicero estava também", disse Marina, por e-mail. "Waly trabalhou comigo em 1980 no show "Olhos Felizes", mas foi uma troca rápida e tivemos apenas dois dias de preparação", contou, referindo-se ao segundo álbum de sua carreira fonográfica.
A parceria com Cássia Eller, por outro lado, foi bem mais intensa. Waly foi o mentor do álbum "Veneno Antimonotonia", de 1997, no qual a cantora emprestou sua voz de fogo à obra de Cazuza. O poeta também idealizou o espetáculo homônimo, que rodou o Brasil e resultou no álbum "Veneno Vivo" (1998). "Eu botei um figurinista, Marcelo Pies, e um maquiador profissional, André, e, a princípio, ela resistiu demais. Era quase uma invasão porque ela sempre gostou de chutar o balde", disse Waly, no programa "Por Trás da Fama", do canal Multishow.
Como compositor, o poeta possui uma obra admirável. Seus versos foram musicados por artistas como Caetano Veloso ("Mel", "A Voz de Uma Pessoa Vitoriosa", "Cobra Coral", "Alteza", entre outras), Moraes Moreira ("Odalisca em Flor", "A Cabeleira de Berenice" e "Lenda de São João"), Adriana Calcanhotto ("A Fábrica do Poema", "Pista de Dança", "Teu Nome Mais Secreto", entre outras), Lulu Santos ("Assaltaram a Gramática"), Roberto Frejat ("Balada de Um Vagabundo"), Gilberto Gil ("Musa Cabocla", "Zumbi", "Ganga Zumba" e "O Cometa") e Itamar Assumpção ("Zé Pelintra").
A respeito das letras que fez sob encomenda de Maria Bethânia, cujos títulos foram atribuídos a álbuns como "Talismã" (1980), "Memória da Pele" (1989) e "Olho D’Água" (1992), Waly frisou, em entrevista a Adolfo Montejo Navas para a revista "Cult", que foram escritas antes das músicas que sobre elas incidiram. "Sabe por que fazia isso? Porque sou metido a besta e por um princípio de que o poeta, pelo menos nisso, é o senhor da linguagem. O músico que trabalhe, que batuque!", provocou.
Quem fala de mim tem paixão
"É muito difícil escolher um só", disse Adriana Calcanhotto, ao ser indagada sobre um episódio marcante vivido com Waly Salomão. "Põe aí que foi o dia em que ele me vendeu para um motorista de táxi em New York!", relatou a cantora, por e-mail. Adriana contou que Waly não perdoava a sua timidez e estava sempre em busca de situações que pudessem tirá-la de sua zona de conforto. "O argumento para o taxista foi que eu era descendente da aristocracia napolitana", revelou. E o preço da oferta? Ela não soube dizer ao certo, mas garantiu que custava uma mixaria. "Isso foi o mais duro pra mim!", divertiu-se.
Outro parceiro de Waly, João Bosco, não esquece um episódio envolvendo o LP "Zona de Fronteira". Lançado em 1991, o álbum traz doze faixas, resultantes de um processo no qual as melodias de João ganharam letras de Antonio Cicero e Waly Salomão. "Foi um entrosamento inédito na música brasileira", disse o cantor e compositor, referindo-se às diferenças entre os três envolvidos no projeto. "A gente se reunia na minha casa. Na hora de mostrar as letras, era o Cicero quem cantava. Ele virou o intérprete oficial do trio!", contou João, por telefone. Quando o álbum saiu, os três foram convidados pelo Sesc Pompeia, em São Paulo, para falar sobre a parceria e comentar faixa a faixa. "Acertamos entre nós tudo o que seria dito, mas o Cicero teve um imprevisto às vésperas da viagem e acabamos indo só eu e Waly", lembrou. Quando chegaram, o palco já estava montado com três cadeiras e Waly pediu para que essa configuração fosse mantida. "Na hora em que o Cicero deveria falar, Waly corria para a cadeira vazia e o imitava. Foi muito engraçado, porque ele mudava a voz! Só mesmo Waly poderia ter desempenhado esse papel, digno de Oscar!", brincou.
Em meados da década de 1990, também em São Paulo, o jornalista Marcus Preto conheceu pessoalmente Waly Salomão. Fã do poeta desde a década de 80, Marcus contou que, naquele período, trabalhava como garçom no restaurante Spot, parada obrigatória de Waly quando estava na cidade. "São muitas as histórias dele ali, mas uma delas explica bem a relação de amor (e eterna provocação) que ele tinha com Caetano Veloso", disse. "Lembro de uma noite em que ele estava jantando com a Maria Helena Guimarães, dona do restaurante e, se não me engano, com o colunista José Simão. Eu estava passando por perto da mesa no momento em que começou a tocar no som ambiente alguma canção do álbum "Livro", do Caetano, que tinha acabado de sair. Por coincidência, uns clientes se levantaram ao mesmo tempo para ir embora e Waly começou a gritar: "Estão vendo? As pessoas vão embora por causa dessa música! Maria Helena vai falir por causa da música dela!"", escreveu Marcus, explicando que o barato foi Waly ter se referido ao parceiro no feminino. "Ele dizia para o casal, apontando para mim: "Voltem, ele já vai tirar essa música, voltem!", lembrou o jornalista.
A respeito da "irreverência" atribuída a episódios como esse, Antonio Cicero adverte, no já citado "A falange de máscaras de Waly Salomão", que é preciso fazer uma distinção. "Às vezes, afirma-se ‘irreverente’ quem não tem respeito por nada nem ninguém. Essa é a atitude de pessoas, na verdade, amargas ou azedas, ou mesmo superficiais, incapazes de fazer distinções de valor. Ora, Waly, como todo poeta, fazia, o tempo inteiro, distinções de valor", garantiu o filósofo, acrescentando que o amigo "manifestava respeito e admiração por muita coisa e muita gente, por exemplo, pelos poetas que considerava grandes".
Com a mesma veemência, Cicero rechaça o rótulo ao qual a poesia de Waly Salomão foi muitas vezes reduzida: "marginal". Para ele, trata-se de uma simplificação que não pode ser aplicada a uma obra tão "culta e elaborada". "Através de procedimentos de deslocamento, distorção, estranhamento, estilização etc., nos quais é capaz de empregar todos os recursos retóricos e paronomásticos que lhe convenha, ele frequentemente obtém um resultado de uma artificiosidade brilhante, que talvez se possa qualificar de barroca", escreveu Cicero.
De fato, a poesia de Waly Salomão, inseparável do modo extremamente pessoal com que o escritor apreendia o mundo, dialoga menos com a espontaneidade do título de "marginal" e mais com o rigor de João Cabral de Melo Neto, quando este afirma, por exemplo, que o "obstáculo diante do ser o obriga a muito mais esforço e faz com que ele atinja o seu extremo". Em um poema chamado "Lausperene", Waly expõe toda a sua admiração pelo autor de "Morte e Vida Severina" e lança a máxima que pode ser atribuída à sua própria vida e obra: "belo é quando o seco, / rígido, severo / esplende em flor."
