Antes de escolher os móveis, as cores ou os revestimentos, Yuri Rebello e Luiz Rabelo, do Estúdio Bohho, imaginaram quem viveria no Studio Negroni 91. O personagem criado pelos arquitetos é um homem cosmopolita, interessado em arte, música, gastronomia e viagens, que coleciona discos, livros e objetos capazes de guardar lembranças. Gosta de cozinhar, preparar um drinque no fim do dia e receber amigos em casa.
A partir dessa figura fictícia, o escritório desenvolveu um estúdio de 25 m² que funciona como uma espécie de biografia espacial. Cada escolha parece pertencer a uma história maior: algumas peças remetem a outras épocas, outras se aproximam do design contemporâneo, enquanto a arte e os materiais ajudam a construir uma atmosfera de familiaridade. A intenção não é apresentar um ambiente com aparência de recém-montado, mas imaginar uma casa que foi ganhando forma ao longo do tempo.
O próprio nome Negroni 91 traduz parte dessa narrativa. Mais do que uma referência ao drinque, ele sugere um ritual de fim de tarde, a preparação de uma bebida e o encontro entre pessoas. Na CASALIV, o projeto do Estúdio Bohho transforma essa ideia em uma reflexão sobre pertencimento: mesmo em uma área compacta, é possível construir um espaço que revele personalidade e sugira uma vida acontecendo ali.
Uma biografia construída em 25 m²
Projetar um estúdio pequeno exige decisões que vão além da escolha de móveis compactos. É preciso acomodar diferentes atividades sem comprometer a circulação ou fazer com que o ambiente pareça dividido em funções excessivamente delimitadas. No Negroni 91, os arquitetos buscaram continuidade visual e sobreposição de usos, com elementos integrados ou suspensos que ajudam a preservar a percepção do espaço.
Dormir, descansar, cozinhar, ouvir música, preparar uma bebida e receber amigos fazem parte da rotina imaginada para o personagem. A integração não se resume à ausência de paredes: está na possibilidade de essas atividades coexistirem e se relacionarem. O bar participa da área de convivência, a música atravessa o estúdio e a arte integra a composição sem ficar restrita a uma função decorativa.
A proposta também evita tratar a metragem reduzida como uma limitação estética. Em vez de concentrar a personalidade do ambiente em um único elemento, o projeto distribui referências entre mobiliário, objetos, texturas, iluminação e obras de arte. A identidade surge da relação entre essas camadas.
O bar como ponto de encontro
Entre as peças de design autoral, o bar Áura, criado por Antônio Guimarães, da Perfini, tem papel especial. Ele materializa um dos hábitos centrais do personagem: preparar um drinque e receber pessoas. Sua presença conecta o nome do ambiente à maneira como o espaço foi pensado para ser utilizado.
O mobiliário não segue uma única coleção ou linguagem. A proposta é aproximar peças de diferentes procedências e referências, como aconteceria em uma casa construída ao longo dos anos. A madeira, os tons naturais, os verdes e as superfícies mais escuras contribuem para criar profundidade. Os tecidos acrescentam uma dimensão tátil e doméstica, em contraste com materiais de aparência mais rígida.
A arte também participa diretamente da narrativa. Todas as obras presentes no Studio Negroni 91 são autorais e exclusivas da Mama Quilla, desenvolvidas para o ambiente. Em vez de aparecerem como complementos acrescentados ao final, elas integram a identidade visual do projeto e ajudam a compor o universo do morador imaginado.
A iluminação muda o ritmo do ambiente
A luz foi planejada para criar diferentes atmosferas, sem distribuir amesma intensidade por todo o estúdio. Durante o dia, a iluminação natural evidencia cores, materiais e texturas. À noite, pontos de luz, efeitos indiretos e focos direcionados destacam superfícies, objetos e obras de arte, tornando a composição mais intimista.
Essa gradação acompanha as situações previstas para o espaço. Uma iluminação funcional atende às atividades cotidianas, enquanto a luz mais baixa e concentrada favorece momentos de descanso e convivência. A intenção é permitir que o estúdio assuma diferentes características ao longo do dia, sem depender de mudanças físicas na disposição dos ambientes.
A tecnologia complementa esse funcionamento. A sonorização e a automação, desenvolvidas em parceria com a TriTech, integram-se à experiência sem disputar protagonismo visual com a arquitetura. O sistema contribui para ajustar o ambiente às diferentes situações de uso, enquanto a música acrescenta uma dimensão que não pode ser percebida apenas pelas imagens.
Uma trilha sonora para o personagem
A seleção musical foi concebida como parte do universo do morador fictício. João Gilberto, Jorge Ben, Sade, Ebo Taylor, Paolo Conte, Tim Maia, Arthur Verocai e Miles Davis estão entre os artistas que inspiram a trilha do espaço. A diversidade de referências acompanha a ideia de alguém que conheceu diferentes lugares e reuniu interesses ao longo da vida.
O som, nesse contexto, não funciona apenas como complemento. Ele participa da construção da atmosfera e ajuda a sugerir como o estúdio seria ocupado em diferentes momentos: uma conversa no fim da tarde, a preparação de um drinque, uma noite entre amigos ou um período de descanso.
É uma dimensão importante da proposta do Bohho, que considera a experiência de um ambiente para além do que pode ser fotografado. Iluminação, música, materiais e objetos atuam em conjunto para criar uma sensação de familiaridade.
O passado como camada, não como cenário
O projeto incorpora referências de outras décadas por meio da cultura do vinil, de objetos analógicos, de peças com caráter de coleção e da valorização de materiais que envelhecem bem. Não se trata, porém, de reproduzir fielmente um período específico ou de transformar o estúdio em uma composição temática.
A mistura entre elementos antigos e contemporâneos reforça a ideia de uma casa formada ao longo do tempo. A madeira, em particular, interessa ao escritório por sua capacidade de adquirir marcas e mudar de aparência com o uso, sem necessariamente perder valor. Essa relação com a passagem do tempo contrasta com ambientes concebidos para parecer novos por tempo indeterminado.
A sustentabilidade aparece, na proposta, também como uma reflexão sobre permanência e relevância. Em vez de associar o espaço apenas à novidade, os arquitetos valorizam materiais, objetos e soluções que possam continuar fazendo sentido depois que a mostra terminar.
Uma maneira de morar a partir de Belém
O Studio Negroni 91 também expressa a visão do Estúdio Bohho sobre o morar contemporâneo brasileiro. A sofisticação, na leitura dos arquitetos, não precisa estar vinculada a interiores homogêneos ou a uma linguagem internacional que apague a origem do projeto. Arte brasileira, materiais naturais, referências locais, objetos de diferentes épocas, música e cor podem coexistir em uma arquitetura atual.
Essa perspectiva ganha uma dimensão própria quando o trabalho parte de Belém. A identidade amazônica não precisa aparecer por meio de símbolos literais ou de uma decoração temática. Ela também pode estar na valorização da matéria, das texturas naturais, do trabalho artesanal e da sensibilidade de quem projeta a partir do território.
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Ao final, o Negroni 91 propõe uma ideia que ultrapassa a metragem do estúdio: uma casa interessante não precisa ser concluída de uma só vez, nem ter todos os elementos perfeitamente combinados. Pode ser construída com o tempo, reunindo objetos herdados, peças contemporâneas, arte, lembranças e escolhas pessoais. O que dá unidade ao espaço não é a uniformidade, mas a capacidade de revelar uma história.
Sobre o Estúdio Bohho
Yuri de Alcântara Pinto Rebello e Luiz Henrique Rabelo da Silva são arquitetos urbanistas e fundadores do Estúdio Bohho, escritório criado em Belém. A partir da Amazônia, desenvolvem projetos de arquitetura e interiores que investigam as relações entre identidade, memória, materialidade e modos de viver.
Com atuação em projetos residenciais, hotelaria, gastronomia, patrimônio, retrofit, espaços institucionais e experiências de marca, o escritório trabalha no Pará e em outros estados brasileiros. Seu repertório inclui projetos para o Banco do Brasil, espaços de gastronomia e hospitalidade, intervenções em imóveis históricos de Belém e projetos residenciais em diferentes escalas.
Contato
Estúdio Bohho
Instagram: @estudiobohho
Site: www.estudiobohho.com.br
E-mail: studio.bohho@gmail.com
Telefone: (91) 99281-2122
Fornecedores parceiros
Grupo Seade & Serra — móveis planejados e marcenaria. Instagram: @seadeeserraplanejados. Telefone: (91) 98429-4022.
Poka Lux — Patrícia Gondim & Gessika — projeto luminotécnico e iluminação. Instagram: @pokalux_. Telefone: (91) 98417-4209.
Mama Quilla — obras de arte autorais e exclusivas. Instagram: @mama_quilla. Telefone: (91) 99942-5755.
TriTech — sonorização e automação. Instagram: @tritechsolucoes. Telefone: (91) 99260-8218.
Atelier das Tintas Belém — Sherwin-Williams — tintas e texturas. Instagram: @atelierdastintasbelem. Telefone: (91) 99342-4423.
Luar Cabeceiras — cabeceira, base de cama e estofados. Instagram: @luarcabeceiras. Telefone: (91) 98432-8787.
Lighting — iluminação. Instagram: @lightbelem. Telefone: (91) 98038-3012.
Habitat — mobiliário solto. Instagram: @habitatmoveis. Telefone: (91) 98397-9002.
Concrem Portas — portas. Instagram: @concremportas. Telefone: (11) 96922-1407.
Triângulo Engenharia — engenharia, obra e execução. Instagram: @eng_triangulo. Telefone: (91) 98026-3200.
Perfini — design autoral; responsável pelo bar Áura, de Antônio Guimarães. Instagram: @perfinimoveis. Telefone: (91) 98123-1395.
Rubinetto — louças, metais e acessórios. Instagram: @rubinettos. Telefone: (91) 99914-8638.



