Uma escada costuma ser percebida como um caminho: um elemento funcional que conecta diferentes partes de uma construção. Em Primeira Memória, Erica Saraiva propõe outra leitura. A artista plástica transforma essa estrutura em uma instalação que altera a percepção do espaço e convida o visitante a abandonar, por alguns instantes, a lógica dos ambientes cotidianos.
A experiência tem um caráter lúdico. Ao se aproximar da escada, o olhar encontra uma composição que parece deslocada da realidade habitual, como se a passagem conduzisse a um universo paralelo. A sensação nasce da combinação entre a escuridão do fundo, a intensidade das cores e a presença de luzes que atravessam a obra. O resultado é um espaço que não se limita a cumprir uma função arquitetônica: ele chama a atenção para a própria experiência de percorrê-lo e observá-lo.
Flores que emergem da escuridão
O fundo preto é um dos elementos centrais da instalação. Em vez de servir apenas como pano de fundo, a superfície escura cria contraste e faz com que as flores pintadas em azul, amarelo e verde fluorescente ganhem destaque. As cores se tornam pontos de atenção na composição e parecem sobressair da sombra, produzindo uma imagem de forte impacto visual.
Essa relação entre o escuro e o fluorescente organiza a experiência do visitante. A ausência de luminosidade no fundo intensifica a percepção das cores, que passam a ocupar o primeiro plano. O olhar percorre a composição em busca de formas e detalhes, enquanto a escada, antes reconhecível como um elemento comum da arquitetura, ganha uma presença inesperada.
As flores também contribuem para afastar a instalação de uma representação literal do cotidiano. Em vez de compor uma cena naturalista, aparecem em cores intensas, integradas a uma ambientação que se aproxima do sonho. O contraste cromático cria uma atmosfera na qual formas familiares assumem outra dimensão, entre o reconhecível e o imaginário.
Neon desenha outro percurso
As mangueiras de neon entrelaçadas acrescentam uma camada de luz à obra. Suas linhas atravessam a composição e estabelecem um diálogo com as flores pintadas, introduzindo uma dimensão gráfica que contrasta com o fundo escuro. A instalação reúne, assim, diferentes elementos visuais: a estrutura da escada, as formas florais, as cores fluorescentes e os traçados luminosos.
O neon reforça a impressão de que o espaço está em transformação. Em vez de conduzir o olhar apenas pela geometria da escada, a obra cria outros percursos visuais, que se cruzam e disputam a atenção. O visitante passa a perceber a estrutura como parte de uma composição maior, na qual os elementos artísticos modificam a leitura do ambiente.
A combinação de flores e luzes também sustenta o caráter onírico de Primeira Memória. A obra não depende de uma narrativa literal para sugerir uma passagem para outra dimensão. É o encontro entre cores, sombras e linhas luminosas que produz essa impressão e abre espaço para diferentes interpretações.
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Sobre a artista
Erica Saraiva é artista plástica e assina Primeira Memória, instalação concebida para a CASALIV. A obra transforma uma escada em experiência visual por meio da combinação de flores pintadas em cores fluorescentes, fundo preto e mangueiras de neon entrelaçadas.
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