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Prédios que se conectam: como as pontes elevadas estão transformando a arquitetura das cidades

Imagine sair de um edifício corporativo, atravessar uma ponte de vidro a dezenas de metros do chão e chegar a outra torre sem precisar voltar ao nível da rua. A cena parece saída de um filme futurista, mas já faz parte da arquitetura de grandes cidades. As chamadas skybridges, ou pontes elevadas, estão ganhando novas funções e transformando a maneira como edifícios e pessoas se relacionam.

Em São Paulo, um projeto recente chama atenção justamente por transformar essa conexão em um dos principais elementos de sua arquitetura. Localizado no Tatuapé, o Almagah 227 reúne duas torres e diferentes usos em um mesmo empreendimento. Projetado pelo escritório Königsberger Vannucchi, o complexo combina unidades residenciais, espaços corporativos, lojas e áreas multiuso. O projeto possui dois pavimentos de laje em formato de ponte, criando uma conexão física entre os volumes.

A proposta acompanha uma transformação na maneira como os edifícios de uso misto são pensados. Em vez de concentrar todas as atividades no térreo, a arquitetura passa a distribuir espaços de convivência, serviços e lazer também em diferentes alturas, criando novas possibilidades de circulação e interação.

O que é uma skybridge?

As estruturas que conectam dois ou mais edifícios são conhecidas internacionalmente como skybridges. Segundo o Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH), organização internacional dedicada ao estudo de edifícios altos e do habitat urbano, elas são estruturas fisicamente conectadas e sustentadas entre dois ou mais edifícios independentes, localizadas pelo menos seis pavimentos acima do nível do solo.

Mas nem toda ponte elevada entre prédios tem a mesma função. Algumas são destinadas principalmente à circulação. Outras incorporam restaurantes, academias, jardins, piscinas, escritórios, observatórios e áreas de eventos.

Nesse segundo caso, a ponte deixa de ser apenas um caminho entre dois pontos e passa a funcionar como um espaço de permanência dentro do próprio empreendimento.

Almagah 227: prédios conectados em São Paulo

No Tatuapé, o Almagah 227 exemplifica como a conexão entre torres pode fazer parte de uma proposta mais ampla de integração entre diferentes usos.

O empreendimento reúne espaços residenciais e corporativos, além de áreas comerciais e de convivência. A conexão entre os edifícios ajuda a criar uma experiência integrada, em que morar, trabalhar, consumir e circular podem fazer parte de um mesmo complexo.

A ideia representa uma mudança na relação entre arquitetura e cidade. Em vez de pensar cada edifício como uma estrutura isolada, os projetos passam a criar conexões capazes de ampliar as possibilidades de uso dos espaços.

Raffles City Chongqing: uma “rua” suspensa

Raffles City Chongqing (Foto: Divulgação)

Um dos exemplos mais impressionantes está em Chongqing, na China. O Raffles City Chongqing reúne oito torres conectadas por uma grande estrutura horizontal conhecida como The Crystal.

Com cerca de 300 metros de comprimento, a estrutura abriga jardins, restaurantes, bares, espaços para eventos, clube residencial, piscina de borda infinita e um observatório aberto ao público.

A escala é tão expressiva que The Crystal ganhou o apelido de “arranha-céu horizontal”. Em vez de simplesmente permitir que as pessoas atravessem de uma torre para outra, a estrutura cria uma espécie de novo nível urbano suspenso, reunindo diferentes atividades em uma única construção.

Linked Hybrid: quando a conexão estimula a convivência

Linked Hybrid (Foto: Divulgação)

Em Pequim, o Linked Hybrid, projetado pelo arquiteto Steven Holl, leva o conceito para um conjunto residencial. O complexo é formado por oito passarelas que conectam nove edifícios entre os 12º e 18º pavimentos.

Cada uma dessas conexões possui uma programação própria. Entre os espaços estão piscina, academia, auditório, museu de arte, área para produção cinematográfica e escritórios.

A proposta foi concebida como uma espécie de “cidade dentro da cidade”, criando espaços que estimulam a circulação e a interação entre os moradores.

Tencent Seafront Towers e a integração no ambiente de trabalho

Tencent Seafront Towers (Foto: Divulgação)

A ideia também aparece no complexo corporativo Tencent Seafront Towers, em Shenzhen. As duas torres são conectadas por passarelas em diferentes níveis, que incorporam áreas comunitárias, espaços verdes e equipamentos de fitness.

Nesse caso, a conexão foi pensada para estimular a comunicação e a convivência entre os funcionários, rompendo com a lógica tradicional dos grandes edifícios corporativos isolados.

As passarelas deixam, assim, de ser apenas elementos de circulação e passam a funcionar como espaços capazes de favorecer encontros e experiências dentro do ambiente de trabalho.

Torres Petronas: a conexão que virou símbolo

Torres Petronas (Foto: Divulgação)

A ideia de conectar edifícios por estruturas elevadas não é nova. Um dos exemplos mais conhecidos está em Kuala Lumpur, na Malásia.

As Torres Petronas são conectadas por uma ponte localizada entre os 41º e 42º andares. Além de permitir a circulação entre os edifícios, a estrutura possibilita o compartilhamento de determinadas instalações e integra a estratégia de evacuação das torres em situações de emergência.

O projeto se tornou um dos símbolos arquitetônicos da cidade e ajudou a popularizar a imagem das pontes elevadas entre arranha-céus.

De passagem entre prédios a espaços de convivência

O que muda nos projetos mais recentes é justamente a quantidade de funções incorporadas às skybridges.

Se antes a ponte elevada poderia ser entendida principalmente como uma solução para deslocamento, hoje ela também pode funcionar como extensão do espaço público, área de lazer, ambiente de trabalho, equipamento cultural ou ponto de observação da cidade.

Essa transformação acompanha uma mudança na própria compreensão dos edifícios de uso misto. Morar, trabalhar, consumir, praticar atividades de lazer e encontrar outras pessoas passam a acontecer dentro de uma mesma estrutura e, em alguns projetos, até mesmo em diferentes níveis conectados no alto.

Mais do que conectar prédios, essas estruturas começam a conectar modos de viver, trabalhar e ocupar a cidade. A arquitetura, nesse sentido, não está apenas levando a cidade para cima: está criando novas formas de experimentá-la nas alturas.