A Taberna São Jorge, ícone da boemia nos anos 2000, reabre suas portas para uma temporada de três meses, em Belém. A fundadora da Taberna e fotógrafa Walda Marques se une ao designer Ugo Garcia para recriar o espaço que promete matar a saudade de antigos frequentadores e velhos amigos. O espaço abrirá dentro da CASALIV, mostra de arquitetura, design, arte, gastronomia e cultura da Leal Moreira, que ocorrerá de setembro a dezembro.
Cenário de encontros, afetos e descontração, o lugar era frequentado assiduamente por artistas e intelectuais de Belém e do Brasil. Walda Marques lembra de planejar o espaço sem pretensões de que se tornasse algo grandioso. “Quando a taberna inaugurou, eu pensei em fazer uma lanchonete. Uma coisa bem simples para ter uma outra fonte de renda. Mas logo ela começou a tomar um outro caminho”, explica.

Para a surpresa de Walda, o que nasceu da ideia de uma simples lanchonete acabou se tornando um dos bares mais populares e bem frequentados de Belém. Nomes como Fafá de Belém e o artista plástico José Augusto Toscano Simões, conhecido como Simões, estavam entre as personalidades que faziam parte da clientela da Taberna.
“A Taberna era uma loucura maravilhosa. Você entrava para encontrar alguém e, quando via, estava no meio de uma conversa, de uma música, de uma ideia nova, cercada de gente que fazia Belém pulsar. A Walda tinha esse dom de juntar mundos. Eu vivi aquilo com muita intensidade. Não era só um lugar para ir, era um lugar para acontecer. Isso não se apaga. A Taberna ficou em quem passou por ela”, recorda Fafá de Belém.

Apesar dos frequentadores ilustres, de acordo com Walda, a decoração não foi pensada com uma proposta luxuosa, mas sim como um convite a tudo o que ela gosta. Por isso, o lugar misturava várias vertentes da cultura: moda, arte, fotografia, teatro, música, boa bebida e comida. Os objetos que compunham o cenário iam do sofisticado ao material de reaproveitamento.
A fotógrafa conta que alguns elementos que marcaram a cena iriam para o lixo e foram incorporados ao lugar de forma natural. “O balcão era a madeira de uma casa que já estava no chão. Eu peguei e não deixei pintar, ele foi usado do jeito que chegou. Eu geralmente fazia essa curadoria, ia atrás das coisas para colocar ali”, recorda.
O ponto de encontro que marcou a cena de Belém
Esse estilo único se tornou marcante para quem viveu as noites da Taberna São Jorge. Até hoje, o bar é lembrado como algo singular por antigos clientes. “Era um lugar muito especial, porque era único. Não era cópia de nada. Não era fruto de nenhuma moda, nem no cardápio, nem nos móveis, nem na cor da parede, em nada. Era fruto de uma pessoa inquieta, criativa e corajosa que conseguia fazer de um bar a cara da sua casa. Não à toa, a gente chamava de ‘Bar da Walda’ muito mais do que de Taberna São Jorge”, recorda o fotógrafo Octávio Cardoso, antigo cliente.
Octávio também lembra do lugar como uma espécie de extensão da casa de Walda Marques. “É um lugar que ficou na memória da cidade. Várias pessoas que vinham de fora de Belém se surpreendiam por um lugar original, que não estava preocupado em acompanhar nenhuma tendência de São Paulo, ou do Rio de Janeiro, ou de Nova York. Ele era o bar com a cara da Walda”, sintetizou.

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Walda Marques criou até uma expressão própria para definir a atmosfera do lugar. “Beberidade” é a palavra que ela usa para descrever o clima das noites na taberna. Com toda essa badalação, o local acabou sendo reconhecido não apenas pelo público, mas também por revistas especializadas que o premiaram pelas comidas e pelo bom atendimento.
“Durante todos os anos da Veja em Belém, a Taberna foi premiada. Melhor boteco, melhor petisco, melhor cozinha. Foram quatro prêmios. Além de ter saído em várias revistas e jornais. As pessoas eram entrevistadas e sempre a indicavam como o melhor lugar”, relembra a fotógrafa.
Parada obrigatória
A jornalista Rita Soares entrevistou Walda Marques em seu canal no You Tube “Armarinho Podcast”, em 2023, junto com sua parceira de bancada, a também jornalista Adelaide Oliveira. Rita relembrou a trajetória do bar teatro que movimentou a cena cultural da capital paraense. “As pessoas chegavam em Belém e os amigos já as levavam lá. ‘Tem que conhecer’. Era um ponto turístico”, definiu.
Em tom de bate papo, Walda também trouxe à tona as experiências únicas que deram à Taberna São Jorge uma identidade inconfundível. “O bar preencheu o que a cidade não tinha naquele momento, coisas que não existiam, uma nova proposta. Até cinema teve dentro da taberna”, recordou.
Apesar do inegável sucesso, quando perguntada se voltaria a abrir o espaço, a fotógrafa negou, porque acredita que é um ciclo que já se encerrou. No entanto, à convite da CASALIV, a fotógrafa topou reabrir a Taberna São Jorge, ainda que por um breve período. E essa será uma oportunidade imperdível para reviver os dias de felicidade que ficaram na memória de Belém.
A Taberna renasce na CASALIV
Mais de duas décadas depois de se tornar um dos endereços mais lembrados da boemia e da cena cultural de Belém, a Taberna São Jorge volta à cidade a partir de uma releitura que pretende recuperar a atmosfera, as memórias e os elementos que ajudaram a construir a identidade do espaço.
A missão de trazer a Taberna de volta ficou a cargo do designer Ugo Garcia. O desafio é transformar as lembranças de um lugar que marcou tantas pessoas em um ambiente capaz de despertar reconhecimento em quem viveu aquela época e, ao mesmo tempo, apresentar essa história a quem não teve a oportunidade de conhecê-la.
“A Taberna tinha um estilo muito próprio e tudo o que ela tinha vai ter na CASALIV. As cadeiras diferentes, as cores marcantes. Deve haver algumas diferenças, mas sempre mantendo a essência”, antecipou o designer.

Para construir essa releitura, Ugo parte de elementos que fizeram parte da identidade visual e afetiva do bar original. A proposta, no entanto, não é produzir uma réplica, mas traduzir para o espaço da mostra aquilo que fazia da Taberna São Jorge um lugar tão particular.
Para além da identidade visual marcante
Ugo acredita que a memória afetiva gastronômica será a grande protagonista. “A culinária da Taberna era muito marcante, depois a seleção musical e por último o espaço físico. O arroz de pato, os sanduíches, a cervejinha gelada junto com o bolinho de arroz e feijão. Acho que o maior gatilho vai ser a culinária”, afirma.
E, assim como acontecia nos anos 2000, a nova Taberna não será apenas um cenário para ser observado. O público vai poder desfrutar de uma programação que pretende levá-los de volta às noites da Cidade Velha. Com arte, música, teatro, bebidas, comidas gostosas e muitas recordações, a intenção é devolver ao ambiente parte da experiência que o transformou em ponto de encontro da cidade.
Por alguns meses, portanto, quem guarda lembranças da antiga Taberna São Jorge poderá atravessar novamente suas portas. Para quem nunca esteve lá, será a oportunidade de conhecer um pouco de um lugar que entrou para a memória afetiva de Belém. E, para Walda Marques, talvez seja uma forma diferente de retornar a um ciclo que acreditava encerrado: não para repeti-lo, mas para vê-lo ganhar novos significados.
