Viajar por um livro pode ser mais do que uma metáfora. O turismo literário transforma lugares relacionados à vida e à obra de escritores em pontos de partida para descobrir diferentes regiões do Brasil. Ruas, praças, casas, cidades e paisagens descritas em livros continuam existindo fora das páginas e permitem aos leitores conhecer de perto parte dos cenários que inspiraram algumas das principais obras da literatura brasileira.
No Rio de Janeiro, é possível caminhar por espaços que fizeram parte da vida e da escrita de Machado de Assis. Em Minas Gerais, poemas de Carlos Drummond de Andrade estão espalhados pela própria Itabira. Na Bahia, personagens de Jorge Amado ajudaram a tornar Ilhéus conhecida por leitores de diferentes gerações.
Na Amazônia, essa relação entre literatura e território também aparece com força. Dalcídio Jurandir transformou o Marajó e Belém em espaços fundamentais de sua obra; Lindanor Celina registrou encontros entre escritores em meio ao Círio de Nazaré; e Inglês de Sousa levou para a ficção paisagens e personagens do Baixo Amazonas.
São lugares que podem ser visitados e ajudam a mostrar como a literatura também guarda diferentes maneiras de enxergar e experimentar o Brasil.
Rio de Janeiro (RJ) - a cidade de Machado de Assis

Poucos escritores brasileiros estão tão associados a uma cidade quanto Machado de Assis ao Rio de Janeiro. Nascido na capital fluminense em 1839, o autor incorporou ruas, bairros e transformações da cidade do século XIX a obras como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Em A Cartomante, por exemplo, a antiga Rua dos Barbonos, atual Rua Evaristo da Veiga, integra a geografia da narrativa. Hoje, a Rota Machado de Assis permite percorrer lugares relacionados à vida e à obra do escritor, incluindo endereços do Centro e a Academia Brasileira de Letras, da qual foi fundador e primeiro presidente. O passeio literário pode incluir ainda o Real Gabinete Português de Leitura e a Biblioteca Nacional.
Belém (PA) - o círio pelas memórias de Lindanor Celina

Em Pranto por Dalcídio Jurandir: memórias, Lindanor Celina transforma o Círio de Nazaré em cenário de encontros da literatura brasileira. Em uma das lembranças, registra Dalcídio Jurandir, Jorge Amado, Zélia Gattai, José e Luiza Condé, Mauritônio Meira e Eneida de Moraes reunidos para assistir à passagem da imagem de Nossa Senhora, na avenida que leva o nome da padroeira dos paraenses. Em outra, acompanha os amigos pelo antigo Largo de Nazaré, entre carurus, vatapás, tacacás, mingaus e barracas do arraial. Lindanor relata que Dalcídio frequentemente se afastava do grupo, atraído pelas pequenas cenas do cotidiano, observando cozinhas, panelas, cuias e fogareiros. Décadas depois, percorrer a Avenida Nazaré e o entorno da Basílica Santuário permite revisitar uma paisagem que, pelas memórias de Lindanor, também guarda parte da história literária do país.
Itabira (MG) - a cidade transformada em poesia por Drumond

Em Itabira, cidade natal de Carlos Drummond de Andrade, os poemas literalmente fazem parte do caminho. O Museu de Território Caminhos Drummondianos reúne 44 placas distribuídas por diferentes pontos da cidade, relacionadas a textos que recuperam lugares, personagens e acontecimentos presentes na memória do escritor. Entre eles estão Confidência do Itabirano, Infância, Casa e Sino. O roteiro permite confrontar a Itabira contemporânea com aquela preservada pela poesia e pode ser combinado com uma visita ao Memorial Carlos Drummond de Andrade. Nesse caso, o turista não precisa procurar sozinho pelos lugares dos livros: é a própria cidade que coloca a obra de Drummond no caminho.
Cachoeira do Arari (PA) - pelos campos de Dalcídio Jurandir
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Campos alagados, rios e o cotidiano do Marajó atravessam a literatura de Dalcídio Jurandir. Nascido em Ponta de Pedras, em 1909, o escritor passou parte da infância em Cachoeira do Arari, município que se tornou fundamental para seu universo ficcional e onde se desenvolve Chove nos Campos de Cachoeira, primeiro romance do Ciclo do Extremo Norte. A região permanece presente em Três casas e um rio, enquanto a trajetória de Alfredo posteriormente chega a Belém. Quem visita Cachoeira do Arari pode aproximar a paisagem real daquela transformada em literatura e conhecer a Casa do Escritor Dalcídio Jurandir, além de lugares como o Lago Arari e o Museu do Marajó.

Ilhéus (BA) - entre Gabriela e Jorge Amado

Em Ilhéus, literatura e turismo se misturam pelas histórias de Jorge Amado. A cidade é cenário de Gabriela, Cravo e Canela, romance ambientado em uma sociedade marcada pela riqueza do cacau e pelas transformações das primeiras décadas do século XX. Parte desse universo permanece incorporada ao roteiro turístico local, como o Bar Vesúvio, associado à história de Gabriela e Nacib, e a Casa de Cultura Jorge Amado, instalada no imóvel onde o escritor viveu parte da juventude. Há ainda uma conexão curiosa com outro destino desta rota: Jorge Amado aparece nas memórias de Lindanor Celina em Belém, assistindo ao Círio de Nazaré ao lado de Zélia Gattai, Dalcídio Jurandir e Eneida de Moraes.
Óbidos (PA) - A Amazônia de Inglês de Souza

Às margens do Rio Amazonas, Óbidos é ponto de partida para conhecer o universo de Inglês de Sousa, nascido no município em 1853 e posteriormente um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Em romances e contos, o escritor transformou rios, embarcações, pescadores, fazendas, crenças e conflitos sociais da Amazônia em matéria literária. Em O Coronel Sangrado, Óbidos é o espaço onde se desenvolve a narrativa, enquanto outras obras, como O Cacaulista, O Missionário e Contos Amazônicos, ampliam essa geografia pelo Baixo Amazonas. Percorrer a cidade histórica e observar o Amazonas permite, assim, conhecer um território que já aparecia na literatura brasileira no século XIX.
Turismo literário transforma livros em mapas de viagem
Do Rio de Janeiro ao Marajó, de Minas Gerais às margens do Amazonas, o turismo literário permite descobrir como ruas, rios, cidades, festas e modos de vida foram transformados em literatura. Algumas dessas paisagens permanecem reconhecíveis, enquanto outras foram modificadas pelo tempo, mas continuam preservadas nas obras e na memória dos escritores.
A experiência também pode mudar a própria leitura: depois de percorrer os lugares narrados pelos autores, voltar aos livros é uma oportunidade de enxergar paisagens e detalhes que antes poderiam passar despercebidos.
