Entre em Contato

Endereço

Ed. Metropolitan Tower - R. dos Mundurucus, 3100 - Cremação, Belém - PA

Telefone

+55 (91) 4005-6800
Carregando clima...
Carregando bolsa...
Bragança leva educação amazônica à Columbia University

Uma experiência desenvolvida em escolas públicas de Bragança, no nordeste do Pará, atravessará fronteiras para mostrar como os saberes de um território amazônico podem transformar a forma de ensinar e aprender. O trabalho realizado pelo Instituto Escolas Criativas (IEC), em parceria com a rede municipal de ensino, foi selecionado para a Paulo Freire Conference, realizada na Columbia University, em Nova York, nos dias 18 e 19 de setembro.

Durante o encontro, o IEC apresenta dois pôsteres sobre experiências desenvolvidas no município. Entre eles está o trabalho “O encontro entre a Aprendizagem Criativa e o currículo freiriano, sujeito, territorialidade e prática”, que mostra como princípios da pedagogia de Paulo Freire podem dialogar com a Aprendizagem Criativa a partir da realidade vivida pelos estudantes.

Vista aérea da cidade de Bragança. (Foto: Divulgação)

Mais do que levar conteúdos para a sala de aula, a proposta parte do território, da cultura e dos conhecimentos presentes nas próprias comunidades. Em Bragança, um dos caminhos encontrados para isso foi um alimento que faz parte da história e da identidade local: o beiju de mandioca.

Quando o beiju vira ponto de partida para aprender

O Projeto Beiju nasceu a partir da percepção de que poucos estudantes ainda acompanhavam, junto às próprias famílias, o processo tradicional de produção do alimento. Em vez de tratar esse afastamento apenas como uma questão relacionada à frequência ou à participação escolar, a iniciativa buscou aproximar a escola dos espaços comunitários onde esse conhecimento permanecia vivo.

A experiência foi desenvolvida na comunidade de Tamatateua, onde a produção do beiju havia diminuído ao longo do tempo. A própria comunidade manifestou o desejo de recuperar esse processo e aproximar as novas gerações de uma prática que carrega conhecimentos, memórias e elementos da identidade local.

“O Projeto Beiju foi criado com o propósito de resgatar esse arcabouço cultural e histórico, embarcar os estudantes nesse contexto e mostrar que existe muito aprendizado”, explica Verônica Gomes dos Santos, diretora de Implementação e Parcerias com Redes de Ensino do IEC.

A partir dessa vivência, a produção do beiju deixou de ser apenas uma prática tradicional e passou a funcionar como ponto de partida para diferentes aprendizagens. O processo envolve conhecimentos sobre cultura, território, história, alimentação e relações comunitárias, aproximando o conteúdo escolar da experiência cotidiana dos estudantes.

A Amazônia Bragantina dentro da escola

O trabalho também ganhou força a partir do tema gerador “Amazônia Bragantina”, levando para a prática pedagógica conhecimentos que já faziam parte da vida das comunidades.

A produção do beiju, os saberes transmitidos entre gerações e a relação das famílias com o território passaram a integrar uma proposta interdisciplinar. Dessa forma, a escola se transforma em um espaço de valorização da cultura local, sem deixar de criar novas possibilidades de aprendizagem.

A parceria entre o Instituto Escolas Criativas e a rede municipal de ensino de Bragança existe desde 2022. Atualmente, a rede reúne 130 escolas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos (EJA) e atende mais de 16,4 mil estudantes, além de professores e gestores.

De Bragança para uma discussão internacional

A apresentação na Columbia University coloca uma experiência construída no interior da Amazônia em diálogo com educadores e pesquisadores de diferentes lugares do mundo. A edição da Paulo Freire Conference deste ano tem como tema “Freire no mundo: das práticas educativas à transformação de sistemas educacionais”.

A proposta encontra conexão direta com um dos princípios centrais do pensamento de Paulo Freire: a educação parte da realidade de quem aprende e se constrói em diálogo com o mundo ao seu redor.

Nesse sentido, a experiência de Bragança apresenta uma perspectiva de inovação educacional que não depende necessariamente da adoção de modelos externos. A transformação pode começar pelo próprio território, reconhecendo conhecimentos que já existem nas comunidades e criando novas formas de trabalhá-los dentro da escola.

Para Ana Beatriz De Sanctis Bretos, cofundadora do IEC e uma das autoras do trabalho, levar essa experiência para o debate internacional também representa uma oportunidade de mostrar a diversidade das práticas educacionais brasileiras.

“É uma experiência brasileira, construída em diferentes territórios, que agora entra em diálogo com uma discussão internacional sobre o legado de Paulo Freire”, afirma.

A autora destaca ainda o papel das próprias redes de ensino nesse processo. Para ela, a transformação da educação pública acontece quando professores, gestores e estudantes encontram condições para participar ativamente da construção das mudanças.

Educação que nasce do território

Da mandioca transformada em beiju aos debates sobre inovação educacional em uma universidade norte-americana, a experiência desenvolvida em Bragança mostra como a cultura local pode ocupar um lugar central dentro da escola.

Em vez de separar o conhecimento escolar da vida cotidiana, a proposta aproxima os dois universos. O território deixa de ser apenas o lugar onde a escola está localizada e passa a ser também fonte de perguntas, experiências e conhecimento.

É uma perspectiva que valoriza a educação pública na Amazônia a partir de suas próprias referências, mostrando que práticas tradicionais, memórias comunitárias e saberes locais também podem abrir caminhos para novas formas de aprender.