O próximo episódio do El Niño pode entrar para a história como um dos mais intensos já registrados. Segundo o físico Paulo Artaxo, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), o fenômeno previsto para 2026 e 2027 pode ser o mais forte dos últimos 150 anos, em um cenário agravado pelo aquecimento provocado pela atividade humana.
As informações foram apresentadas durante o videocast O Clima na Faria Lima, do site InfoMoney. De acordo com o especialista, a combinação entre a variabilidade natural do fenômeno e o atual nível de gases de efeito estufa na atmosfera pode intensificar os eventos extremos associados ao El Niño.
Impactos no Brasil
No Brasil, um El Niño mais intenso em um planeta mais quente pode alterar o regime de chuvas e as temperaturas em diferentes regiões. O cenário aumenta o risco de secas extremas em algumas áreas e de chuvas intensas e inundações em outras.
Os efeitos podem atingir diretamente setores como agricultura e geração de energia. A redução ou o excesso de chuvas pode comprometer a produtividade de áreas agrícolas e provocar oscilações nos níveis dos reservatórios de usinas hidrelétricas. Nas cidades, o aumento das temperaturas também pode intensificar as ondas de calor e seus impactos sobre a população.
Artaxo destacou ainda que, caso o aquecimento médio global alcance 2,8 °C, a elevação da temperatura no Brasil pode variar entre 3,5 °C e 4 °C. O aumento representa uma pressão adicional sobre os ecossistemas e a economia do país.
Entre os principais pontos de atenção está a preservação das florestas. Segundo o professor, a manutenção da Amazônia e do Cerrado é fundamental para o funcionamento dos chamados rios voadores, fluxos de umidade que ajudam a levar água para o Brasil Central, onde está concentrada parte importante da produção agrícola, além das regiões Sudeste e Sul.
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A adaptação às mudanças climáticas também exige planejamento de longo prazo. Entre as medidas apontadas estão a proteção da faixa costeira diante da elevação do nível do mar, o combate ao desmatamento ilegal e o fortalecimento do monitoramento ambiental.
Transição energética
Para Artaxo, o Brasil reúne condições para avançar na transição energética devido ao potencial de geração solar e eólica, especialmente no Nordeste e na faixa litorânea.
Atualmente, 52% da geração elétrica do país vem de usinas hidrelétricas com reservatórios. Essa estrutura pode funcionar como uma espécie de armazenamento natural, permitindo maior utilização das fontes solar e eólica durante o dia e das hidrelétricas em outros períodos.
No transporte, a eletrificação das frotas, os biocombustíveis e o biometano aparecem entre as alternativas para reduzir emissões e a poluição nos centros urbanos.
O especialista avalia que as tecnologias necessárias para reduzir as emissões já estão disponíveis. O desafio, segundo ele, está em ampliar sua adoção e direcionar investimentos para soluções de menor impacto ambiental.
