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A cor do Som

Cores. Sons. Luzes. Borrões, nuances. Tudo é muito vivo, muito vibrante. O clima lúdico convida a multidão a se divertir. E embora o turbilhão de tons quentes ofereça sensações confortavelmente familiares, é difícil ignorar a euforia que vem junto com o ar de novidade provocado por toda essa efervescência. Embora caiba feito luva, a descrição não fala do tradicional parque de diversões que é montado de tempos em tempos em Belém; e sim da jovem cantora que posa para as fotos deste ensaio por entre seus brinquedos. Aíla é tal qual o parque: popular, receptiva, um convite à festa – uma “proposta indecente”, como diz uma das faixas de seu disco, o “Trelelê”.

O álbum de estreia, dirigido por Felipe Cordeiro, começou a causar coqueluche mesmo antes do lançamento oficial. Não à toa. A cantora trouxe o frescor da modernidade a uma cena já em franco desenvolvimento, ocupando um ponto equidistante entre o sotaque regional – subitamente querido entre as mais importantes figuras do mercado fonográfico – e o atrevimento tão característico da música pop. Somou-se à mistura uma interpretação limpa, sem afetações. Pronto. Aíla surgia, e já era mais que uma voz. Era um conceito - forte, mas (e por isso mesmo) descomplicado. A mensagem era clara: ela não era uma diva, nem alguém se obrigando a soar inteligente, embora de fato soasse. A cantora era alguém em busca da diversão, para si e para quem topasse o caminho com ela.

E se o assunto é diversão, a artista está em casa em meio ao vai e vem de gente que ora passa apressada, ora se demora pela curiosidade. É impressionante como fica à vontade – a despeito da perceptível timidez que acompanha sua fala baixa e os sorrisos sempre largos. Ao mesmo tempo, é fácil compreender o porquê: ela é parte da multidão porque a multidão também é parte dela, esteja onde estiver. No palco, na lanchonete ou em um parque de diversões, a cantora não impõe distanciamento. Conversa com desconhecidos, cumprimenta, fala sem nenhum constrangimento sobre seu trabalho para quem também nunca a viu. Talvez seu grande trunfo resida nesse ciclo tão bem amarrado – a simplicidade e a transparência que estão no seu trabalho também estão em sua personalidade. Ela não parece inatingível, e sim alguém com quem se tem intimidade. Assim também é sua música.

Também foi simples, transparente e íntima a conversa que a cantora teve com a Revista Leal Moreira. Ela falou de mudanças, processos pessoais que a levaram a ser quem é como artista – e, naturalmente, de seu trabalho. Aliás, se ele não falasse por si, o papo supriria o papel de não deixar dúvidas: Aíla é a prova cabal de que o som tem cor.


No início da sua carreira, você se assemelhava às cantoras tradicionais de MPB. Já no seu disco de estreia, o “Trelelê”, você rompe com esse estereótipo. Como foi esse processo de modificação?

Eu comecei a cantar profissionalmente em 2008. Montei um repertório variado para tocar na noite, que era o único meio disposto a receber novos artistas. Já comecei cantando com amigos respeitados nesse meio, e escolhia as músicas de um jeito que combinasse o meu gosto com o de quem estivesse me acompanhando. Por isso, cantava Geraldo Pereira, Cartola, Dorival Caymmi; mas também cantava Marisa Monte, Cazuza, gente da música pop – que era com o que eu mais me identificava. No meio do caminho, fui conhecendo vários compositores daqui; e eles foram me convidando para defender suas músicas nos festivais. Foi quando eu comecei a escolher o rumo desse trabalho: quando eu passei a decidir que compositores eu queria cantar. Algumas pessoas me mostravam músicas e eu dizia “mas isso não tem a ver comigo”. Em compensação, me identifiquei de cara com alguns nomes antigos que eu queria gravar, como Alípio Martins, ou mesmo o Pinduca. Nessa época, também conheci Dona Onete, Mestre Laurentino... Tudo isso influenciou na estética que eu escolhi –  junto com o Felipe [Cordeiro], que produziu o disco – para esse primeiro trabalho.  

 

Você foi muito bem acolhida por todo mundo de cara...

Sim, acho que tive um pouco de sorte também. Digo isso porque fui conhecendo pessoas fundamentais para esse processo de intérprete, de gravação de disco. Tive figuras muito importantes que me deram todo o apoio, como o Manoel Cordeiro, a Dona Onete... Mas eu nunca fui, sei lá, uma cantora de samba. Eu adoro o estilo, mas não queria pra mim essa estética. Minha linguagem é mais pop, algo mais dos anos 90 pra cá... Tenho entre minhas referências gente como a Marina Lima – uma cantora não tão técnica, mas de muita personalidade. Hoje eu estou em um momento de me dedicar mais ao estudo da música, coisa que eu nunca fiz de um jeito aprofundado. Eu comecei a me aproximar mais do violão, a escrever algumas coisas e querer musicá-las... Eu tenho tanta coisa pra dizer, e às vezes não há um compositor pra dizer aquilo por mim, do jeito que eu gostaria. Às vezes eu quero mudar as letras das músicas que eu canto, mas sei que não posso (risos). Tenho esse costume de falar demais o que eu penso. Às vezes isso é bom, mas às vezes é muito ruim. Talvez a música seja uma porta legal pra falar justamente essas coisas.

De onde veio sua relação com a música?

Isso é meio clichê, mas minha família tem muitos músicos. Isso me rendeu referências positivas e negativas. Eu tenho um primo que era cantor lírico. Cantava no Theatro da Paz, dava aula no [conservatório] Carlos Gomes... E desde três anos de idade eu ia ao teatro vê-lo. Mas aqui pra mim era um tédio, eu ia de má vontade (risos). Tinha meu avô, um exímio instrumentista. Eu já o conheci na adolescência, em Conceição do Araguaia, onde ele morava. Ele era radioamador, era cheio de LPs, de material. Ele me encheu de referências. Também tinha outros primos que tocavam violão, eu cantava de brincadeira com eles, essas coisas. A relação se estreitou mesmo quando eu estava na universidade. Eu fazia secretariado trilíngue, e tinha a intenção de ser diplomata (risos). No bloco que ficava ao lado do meu curso, estava o curso de música. Quando acabava minha aula, eu ia pra lá. Eu já era mais amiga das pessoas do curso de música que daquelas do meu próprio curso. A música sempre esteve muito presente, mas foi no meio da faculdade que eu assumi isso. Eu venho de uma família pobre, e moramos só eu e minha mãe desde sempre. Então eu tinha que fazer faculdade de tarde, cantar à noite, estagiar de manhã e ainda tinha um emprego de recepcionista – tudo pra ajudar a sustentar minha casa. Acabou que eu vivi várias experiências juntas, e todas elas me ajudaram muito.

 

Acabou que tudo aconteceu meio rápido na sua carreira. Isso em algum momento assustou?

Foi rápido mesmo. Não assustou, mas em vários momentos eu me vi meio perdida, despreparada. Fui aprendendo as coisas pela necessidade. O artista independente aqui em Belém tem que ser meio assim, saber um pouco de tudo. Não temos empresários que tomem conta de toda a parte burocrática. Depois que terminei o primeiro CD é que respirei e vi que já sei como é que se faz. Agora vou poder fazer o segundo trabalho com mais tranquilidade. Mas sou muito feliz por ter acontecido dessa forma, porque foi positivo.

 

A identidade visual é parte forte do seu trabalho, desde a intensidade das cores até as projeções visuais. Como você chegou a esse conceito?

Veio muito de mim, dessa coisa de eu usar muitas cores no figurino. Eu achava que o visual deveria refletir a alegria que a música já refletia. Por isso me preocupei em fazer uma coisa diferente, e a Roberta [Carvalho, artista visual que coordenou o projeto gráfico do “Trelelê”] se voltou para uma pesquisa nesse sentido. Ela pode explicar melhor esse processo.

[Nesse momento, Roberta se junta a nós. É ela quem fala a seguir] Meu primeiro pensamento foi perceber que a estética dela era multifacetada. Traduzida numa linguagem visual, eram cores – já que a Aíla sugeria uma mistura de ritmos, sonoridades, propostas, pessoas... Resolvi inserir isso junto de algo que ela já vinha trazendo no vestuário, na maneira como a gente pensava o design do material impresso do trabalho. Tendo isso em mente, utilizamos como referência para o disco um festival indiano chamado Holi, que comemora a chegada da primavera. Nele, as pessoas fazem uma espécie de guerra de cores, utilizando uma tinta natural em pó. A capa do disco mimetiza isso.

[Aíla retoma] E eu não queria uma capa posada. Não tinha nenhuma intenção de ser sexy, por exemplo. Queria algo com movimento, que fosse diferente, que tivesse algo de maluco, de desajeitado (risos).

 

Você é muito centralizadora nos processos que envolvem a sua carreira?

Eu gosto de fazer parte de todos os processos, principalmente porque não gosto de ser surpreendida. Não gosto da possibilidade de chegar a uma determinada situação e encontrar algo que não tenha nada a ver comigo. Não consigo trabalhar sem parcerias, não sou individualista. Mas sou uma pessoa preocupada. Gosto de ouvir as pessoas, de participar, mesmo em coisas que eu não entenda totalmente. Já vi vários cantores chegarem ao estúdio só para gravar a voz do seu próprio CD. Aí não fica a cara dele, e sim a cara de todo mundo. Eu queria que tivesse a minha cara, que fosse sincero. O público sente quando a coisa não é de verdade.

 

Costumam dizer que o segundo disco é o que determina os rumos de uma carreira musical. O que você espera da estética desse segundo disco, que já começa a ser produzido?

Ainda não penso muito sobre a estética sonora que ele deve trazer. O primeiro disco era um trabalho popcom sotaque regional. Pode ser que o segundo venha um pouco mais rock. Digo isso porque eu venho me libertando para escrever o que eu penso, e porque gosto da atitude do rockno palco. O rock, pra mim, é mais no sentido da atitude que do estilo musical. As referências também devem ser mais globais que nortistas. Em janeiro, me mudo para São Paulo. Preciso ter uma base lá pra difundir melhor o trabalho, ter uma banda lá pra facilitar esse processo. Vou pra lá testar algumas coisas, circular mesmo. Então não sei ainda onde vou gravar, mas gostaria muito que os músicos daqui fizessem parte disso.

 

O que dá pra tirar desses cinco anos de carreira?

Acho que eu tive a sorte de estar no lugar certo, na hora certa. Fui bastante dedicada, abracei o projeto... Isso fez com que eu amadurecesse vinte anos em cinco. Aprendi muita coisa que eu nem queria aprender, mas precisei aprender. E fico muito feliz, porque o CD, registro máximo do meu trabalho, foi feito com amor. Não foi um disco encomendado. Hoje eu me sinto mais preparada pra tudo: pro palco, pra gravar um segundo trabalho... E é pouco perto do que ainda pode ser. É só o começo. Eu preciso aprender muito e me dedicar muito mais. Acho que é um processo. Minha intenção é estar sempre em Belém. Quero ir pra São Paulo e trazer outras coisas pra cá. Não quero guardar nada pra mim. Quero poder ajudar, viabilizar contatos para outros artistas. Enfim, quero colher os frutos desse amadurecimento, já que você cresce muito quando faz parte de verdade de todo esse processo.

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