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A nova revolução feminina

Não faz tanto tempo assim, quando as convenções sociais ditavam que o homem deveria ser o provedor da casa. Quando a Segunda Guerra Mundial estourou, muitos homens foram chamados para as fronteiras, cabendo às mulheres o novo papel de administrar a casa e ir atrás do seu sustento e de seus filhos. Quando a guerra findou, uma mulher ousou afirmar que “não nascia-se mulher. Fazia-se mulher”. Quando Simone de Beauvoir lançou seu “O Segundo Sexo”, as sementes do feminismo foram lançadas a um solo fértil da insatisfação delas. Anos depois, nos Estados Unidos, em protesto contra a ditadura da beleza, elas reuniram os símbolos de opressão e os queimaram em praça pública. No Brasil, elas lutaram pelo voto e conseguiram o direito ao sufrágio em 1932 (leia box), mas uma nova revolução feminina está acontecendo. Longe de queimar sutiãs, porém, as mulheres estão buscando seu espaço profissional, ocupando cargos que antes eram considerados masculinos. E em qualquer profissão, a tendência é que a presença feminina seja cada vez maior. Para isso, elas estão mostrando-se pioneiras e sabem lidar com todas as dificuldades, em busca de mais destaque (e igualdade) no mercado de trabalho.

Christiane Lobato, 37 anos, é uma delas. Bela e vaidosa, ela é apenas um espelho do novo perfil da Polícia Civil no Brasil e, principalmente, no Pará. Christiane é delegada de polícia. E está muito longe dos estereótipos de policial que povoam o imaginário coletivo. Delegada geral adjunta da Polícia Civil do Estado do Pará, ela ingressou na Polícia Civil, em 2005, período no qual atuou em delegacias do Marajó. Foi diretora de seccionais e diretora de Atendimento aos Grupos Vulneráveis, responsável pela coordenação das Delegacias da Mulher; da Criança e Adolescente; de Proteção ao Idoso; de Crimes Discriminatórios e Homofóbicos e de Tráfico de Pessoas.

A escolha profissional veio quase por acaso. “Na verdade, nunca pensei em ser policial. Depois que me formei em Direito, comecei a fazer concursos públicos, sem objetivos concretos. Passava e fazia para ver se me identificava. Acabei passando para a Polícia. E aí, você acaba se apaixonando”, afirma. “Os dias nunca são iguais. Apesar das dificuldades, você sente a vontade de continuar, não só pelo trabalho, mas que a população sinta que a Polícia mudou”.

Para Christiane, a mudança no perfil policial já se reflete no atendimento à população. “É importante que a população veja essa mudança. Sabemos que ainda temos o que mudar, e as melhoras sempre vêm a longo prazo. Hoje, a Polícia Civil de muitos estados, como o Pará, deixou de trabalhar só na repressão. Trabalhamos também na prevenção. Investimos muito na questão social”, garante. “A população ainda tem preconceito com o trabalho policial. Muitas vezes, a pessoa sofre o crime, mas não procura a polícia, porque ela acha que vai ser atendida por uma pessoa grosseira, em um ambiente sujo, e a gente luta diariamente para que isso mude”, afirma.

A delegada diz que, assim como em outras profissões, existem “prós” e “contras” no trabalho feminino. “As mulheres são mais detalhistas, elas se preocupam muito com as pequenas coisas – não só do procedimento em si, mas também no atendimento ao público. Você nota essa diferença. Não que o homem não seja sensível, mas as mulheres têm essa característica na própria cultura, que ela traz de casa. Querendo ou não, o trabalho é extensão da nossa família, da nossa vida”, reitera. “E pelo fato da mulher ter a família, ter o filho, uma obrigação a mais, o homem tem mais facilidade no trabalho externo. O homem pode passar 30 dias no interior, por exemplo, mas a mulher dificilmente. A mulher tem a casa, os filhos, o marido. E historicamente, a mulher tem a obrigação no ambiente familiar. Você tem que equilibrar isso”.

Assim mesmo, ela acha que o trabalho é gratificante, apesar do dia a dia estressante. “A nossa profissão é arriscada, não somente pelos riscos reais, mas porque você se desgasta mais emocionalmente. Às vezes, as mulheres têm interesse em seguir a carreira na Polícia, mas os próprios pais e a família são resistentes. A minha mãe vive dizendo que, por ela, eu não seria da Polícia. E olha que eu não levo trabalho algum para casa”, brinca. “Eu acho que tem que amar o que você faz, se dedicar, se dedicando acaba conseguindo destaque. As pessoas que conseguem trabalhar com excelência, elas se sobressaem”, ensina.

Christiane é vice-presidente do Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM) e membro do Comitê Estadual de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Ela também prestou assessoria às CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) do Tráfico de Pessoas, em Brasília, de combate à Pedofilia e do Tráfico de Pessoas, na Assembleia Legislativa do Pará. Foi condecorada com o prêmio “Dulce Accioli”, em 2009, pela Câmara de Vereadores de Belém. Ela comandou também as investigações iniciadas no Pará que resultaram na descoberta de uma rede de tráfico de pessoas e de prostituição em São Paulo, em 2011.

Acima das dificuldades, o prazer

No caso de Ana Luna Lopes, 40 anos, o pioneirismo feminino tem um sabor especial. Ou melhor, vários sabores e aromas. Ela é a única sommelier mulher em atividade no Pará e trabalha em uma das maiores lojas de vinho da região. A paixão pela bela bebida nasceu em terras europeias. “Eu morei na Itália por muitos anos e sempre fui apaixonada por gastronomia, que é sagrada na Europa. E chegar até os vinhos foi bem fácil a partir daí”, garante. “Comecei a viajar muito pela Europa, conhecer lugares e países diferentes. Me apaixonei pela França, estudei francês, comecei a viajar e conhecer as principais ‘mecas’ deles: Bordeaux, Borgonha, Champagne”, diz, citando as regiões mais importantes  na produção da bebida no mundo.

Longe de ser apenas um degustador de vinhos, o trabalho do sommelier, diz Luna, é variado e requer muito estudo. “Nós não só degustamos vinhos. Talvez essa seja a parte divertida da profissão. Mas, no fundo, a nossa profissão é muito difícil, requer conhecimento, disciplina, sensibilidade”, explica. “O sommelier controla o estoque, conhece bem o mercado, conhece todas as novidades em nível mundial. Além disso, claro, tem que saber vender, saber respeitar o cliente, ter conhecimentos variados, ter uma cultura extensa também. Vinho e cultura estão bastante associados”.

Mas, para chegar até aqui, é preciso trilhar um longo caminho. “Um bom sommelier tem que estudar muito, conhecer outro idioma. Além do italiano, tem que conhecer, no mínimo, o inglês e o francês. O estudo acadêmico é importante. Mas, você tem que se atualizar o tempo todo, conhecer as regiões, o clima, para chegar a ter um conhecimento não abstrato”, garante. “Quando viajam, as mulheres ‘normais’ compram sapatos. Eu compro vinhos”.

As maiores dificuldades, ressalta, estão em conseguir a formação adequada, que requer tempo e dinheiro. “Nem mesmo os cursos da Associação Brasileira de Sommeliers chegam até aqui. Quer dizer, as mulheres interessadas em estudar, em Belém, têm esse limite. Têm que ir pra São Paulo, Rio ou Brasilia, para fazer um curso da ABS”. Mesmo assim, Luna diz que já existem iniciativas para mudar esse panorama. “Criar uma plateia é muito importante, para que as pessoas que se interessam por vinho possam buscar um conhecimento maior”, ensina. “O aspecto mais importante do meu trabalho é a formação, fazer com que as pessoas conheçam mais. Somente harmonizar um prato é muito limitado. Precisamos saber mais”.

Luna garante que o público feminino é mais interessado quando o assunto é a bebida. “A maioria das mulheres que fizeram cursos comigo, continuam como estudiosas do vinho. As mulheres têm muito mais sensibilidade, nosso olfato é mais aguçado e temos uma característica muito feminina que é a curiosidade”, avalia. “Quando é um casal que vem aqui, é ela que acaba escolhendo”, brinca. Ela cita ainda o aumento no poder de consumo como um dos fatores importantes para o crescimento do interesse da população pelo vinho. “Existe hoje uma revolução nos gostos. Hoje as pessoas falam naturalmente de gastronomia, ligado ao momento econômico do Brasil, as pessoas compram mais, buscam mais”, avalia.

Mas, existe preconceito por ela ser mulher entre os clientes? Segundo a especialista, se este existe, fica do lado de fora da imensa adega que compõe a loja da Braz de Aguiar. “Tinha preconceito na Europa, quando comecei a estudar. Eu era estrangeira. Eles têm esse tipo de preconceito. Um pouco de arrogância, não generalizando. Eles se perguntam se uma brasileira ia ter o mesmo conhecimento que eles, europeus”, garante. “Tenho clientes habituées que já perceberam meu conhecimento e acreditam no trabalho”.

E para as mulheres que queiram seguir esta carreira fascinante, a dica dela é a perseverança. “Eu diria que a mulher tem que seguir sua paixão. As dificuldades são muitas. Tem que ir para outros estados do Sudeste, onde temos ótimas escolas. Mas é um percurso muito complicado. Tem que ter muita paixão, o investimento é alto. Você escolhe essa paixão e tem que investir nela”, complementa.

Desbravando os mares

Hildelene Lobato Bahia e Vanessa Cunha dos Santos devem fazer história em fevereiro de 2013, quando embarcam no navio petroleiro Rômulo Almeida, da Transpetro. É que as duas serão as primeiras mulheres no Brasil a comandar um navio da Marinha Mercante. Hildelene é a comandante. Vanessa é a imediata.

Hildelene se tornou a primeira comandante da Marinha Mercante Brasileira aos 39 anos. Nascida em Icoaraci, distrito de Belém (PA), formou-se em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Pará (UFPA), prestou concurso, quase que por acaso, para a Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (EFOMM). Fez a prova apenas para acompanhar o irmão, que havia feito a inscrição. Aprovada, passou a integrar o primeiro quadro feminino do Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar (CIABA), em Belém.

Em 2003, foi aprovada no concurso público da Transpetro e passou a ser uma das primeiras mulheres a trabalhar na frota da Companhia. Na primeira vez que embarcou, era a única figura feminina a bordo do navio Lorena. Além da estranheza dos tripulantes, Hildelene teve de driblar os receios dos pais, que acreditavam ser uma mudança muito forte na vida da filha. Lá, tornou-se segundo e primeiro piloto, a primeira mulher no Brasil a chegar a imediato – segundo cargo na hierarquia de um navio – e a primeira capitã de cabotagem.

Em 2009, Hildelene assumiu o comando do navio Carangola, tornando-se a primeira mulher a ocupar o posto mais alto da hierarquia da Marinha Mercante. Em 2012, foi nomeada capitã de longo curso, sendo a única mulher no Brasil apta para navegar pelos mares do mundo inteiro. “O mercado de trabalho para os marítimos no Brasil está aquecido e a carreira na Marinha Mercante nunca foi tão promissora. Nesta profissão, é possível ter estabilidade financeira e perspectiva de crescimento acelerado. No meu caso, por exemplo, cheguei ao posto de comandante em apenas 10 anos”, declara. Hildelene destaca as palavras-chave para quem deseja ingressar na Marinha Mercante: dedicação e estudo.

E Hildelene não está só nesta missão. Aos 30 anos de idade, Vanessa Cunha dos Santos está ao lado da comandante Hildelene. Juntas compõem a força feminina nos postos de comando do quarto navio do Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef) a entrar em operação. Aos 18 anos, prestou diversos concursos e vestibulares. Na época, já formada como técnica em química foi aprovada no concurso para a Petrobras, na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (EFOMM) e na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Vanessa, que até então nunca tinha pensado seriamente em ser marítima, apaixonou-se pela carreira e realizou o sonho ao ingressar na Transpetro. Foi admitida na Companhia em 2005, quando as mulheres a bordo eram raridade. Nessa época, Hildelene era empossada como a primeira imediata mulher da Marinha Mercante e, Vanessa, queria ser como ela. “Tenho muito orgulho de ser uma das poucas mulheres a ocupar atualmente um cargo de chefia na Marinha Mercante. Acredito que cada vez mais as mulheres vão optar por seguir este promissor caminho”, afirma.

Águas nunca antes navegadas

A carioca Dalva Maria Carvalho Mendes  também é uma desbravadora de mares. Aos 56 anos, ela é a primeira militar a ocupar o posto mais alto da marinha para as mulheres, promovida do posto de capitão de mar e guerra (equivalente a coronel, no Exército), para o de contra-almirante (equivalente a general de duas estrelas), em novembro de 2012. Médica anestesista, ingressou nas Forças Armadas em 1981, no primeiro grupo feminino que entrou no serviço militar no país, após se inscrever em concurso público. “Como havia poucos concursos públicos na época, houve uma corrida de mulheres. Foram cerca de 12 mil candidatas inscritas”, lembra. “Foi uma grande oportunidade, era uma tendência da época, procurar caminhos para seguir na carreira militar.”

Dalva não teve nenhum familiar seguindo o mesmo caminho. Ela decidiu percorrer esse caminho pela paixão ao mar e à Medicina. “Comecei trabalhando no Hospital Marcilio Dias de alta complexidade da Marinha”. A oficial trabalhou de 1981 até 2009 no Hospital, chegando ao cargo de vice-diretora. Foi ainda diretora da Policlínica Naval Nossa Senhora da Glória, onde possui várias condecorações como a Ordem do Mérito Naval, Medalha Mérito Tamandaré e Medalha Militar com Passador de Ouro.

Dalva lembra que a adaptação não foi simples. “Nós tivemos que ter um curso de adaptação. Não foi uma adaptação só nossa, foi uma adaptação da Marinha também”. Hoje, a Marinha possui cerca de 6 mil mulheres. “Foi um ganho grande para as forças armadas e para a sociedade. A sociedade não pode deixar de lado o trabalho feminino”, afirma.

Ela acredita que as pessoas, de maneira geral, já veem o trabalho das mulheres no serviço militar de maneira normal. “As mulheres já estão em todos os trabalhos. Antes havia um estranhamento, hoje é cada vez menor”, diz. Para ela, o mais importante para exercer um cargo de liderança é o amor ao trabalho. “Eu sempre digo para os meus filhos: não importa o que vocês querem fazer, o importante é fazer com a alma, com o amor, no trabalho que nos deixa felizes. Corra sempre atrás dos seus sonhos, sempre respeitando os seus companheiros de jornada”, ensina. “A receita para conciliar o trabalho com a família é a união. Se tem parceiros, se há companheirismo, você consegue lidar com todas as coisas”.

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