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Ele costuma contar que nasceu na cozinha. Aos três anos, já ajudava a preparar bolos ou estava a untar formas e antes de inteirar a primeira década de vida, cozinhava com os adultos.
 
Não, ele não se considera um prodígio e suas conhecer suas origens ajuda a entender tamanha paixão [e vocação].
 
“Minha mãe é uma excelente cozinheira e doceira. Meu pai, apesar de poucas vezes ir à cozinha, quando ia era um excelente cozinheiro n’aquilo que chamamos a cozinha de homens (feijoada, guisado..), mas tenho ótimas recordações das casas dos meus tios e dos meus avós. Posso dizer que o que herdei da minha família foi o prazer pela mesa”. 
 
No coração e na cozinha
 
Começo a entrevista perguntando se ele costuma cozinhar em casa. “Sim, muito. E quando viajo, tenho necessidade de cozinhar, nem que seja na casa de amigos”.  “O bacalhau é um prato imprescindível na sua cozinha?” pergunto, ao que ele prontamente me responde que o bacalhau tem uma grande importância na mesas dos portugueses, ”mas  o peixe, em geral, bem como o porco, as aves de capoeira e mesmo o cordeiro são presenças fundamentais à mesa lusitana. A família portuguesa utiliza cada um desses produtos em função da época do ano ou de épocas festivas e que têm diferenças de Norte a Sul do país”.

Conseguir um tempo de Vitor Sobral é um privilégio. Mesmo dividido entre os dois continentes, onde o chef mantém as “Tascas” e os inúmeros compromissos em sua agenda, ele é simpaticíssimo. Fala de amor e cozinha e evoca as recordações de uma infância vivida em um ambiente familiar absolutamente gastronômico. “Qual prato ou ingrediente o leva diretamente para sua infância?”. Ele pensa um pouco e conta que “a mesa da família era tratada com muito cuidado e carinho”. “É-me extremamente difícil enumerar um único ingrediente ou um prato, porque – felizmente – a variedade era [e ainda hoje é] muito grande”.
E já que estamos falando de família e tradições, o chef conta que tem dois filhos e que o mais velho está à frente do Tasca da Esquina de São Paulo. Prova de que a paixão pela cozinha é ‘geneticamente transferível’. Pergunto se ele costuma ir para a cozinha com ou para os filhos? E se é algo que ele recomenda a outros pais. “Sim, claro! A cozinha não só proporciona bons momentos, como desperta os sentidos”.
Lisboa, São Paulo e Paraíba
A Tasca da Esquina, que reúne o melhor da culinária portuguesa com técnicas modernas. Pela definição do próprio chef, a Tasca é “uma cozinha vanguardista e muito criativa, com bases sólidas de tradicionalismo”. O objetivo é ainda mais desafiador: ressignificar o prazer de estar à mesa. 
Tal qual os desbravadores portugueses, Sobral decidiu cruzar o Atlântico em busca de novos horizontes, da “terra que em se plantando, tudo dá” e viu em São Paulo um lugar para abrigar sua Tasca.
Bem recentemente, o chef se apaixonou por João Pessoa. “A cidade me cativou logo à primeira vista. João Pessoa conquistou meu coração e me inspirou novos sabores, aromas e texturas. Lugar que minha alma escolheu para ser minha nova casa”.
 
Sobre a experiência com o papa Bento XVI

Falo que ele mencionou em algumas entrevistas que não sentiu pressão ao cozinhar para o Papa Bento XVI. “O segredo (ou o bom tempero) da boa refeição é a simplicidade?” 

“O segredo em qualquer cozinha é a qualidade dos produtos e quando cozinhamos bons produtos, se foram cozinhados de uma forma simples o sucesso é garantido”.

“É difícil cozinhar/criar algo que agrade a todos? Qual o segredo para tocar o coração das pessoas?”, pergunto, já sentindo que nosso tempo estava se esgotando. 

“Não, desde que se cozinhe com alma de uma forma simples, para que todos entendam. Cozinhar é um ato de amor, embora a intensidade seja diferente em função das ocasiões e das pessoas”.

Falando em amor e em respeito à riqueza da culinária brasileira, o chef presenteia os leitores da Revista Leal Moreira com uma receita exclusiva do “Tasca da Esquina”: Garoupa confitada com emulsão de bacuri.
 

 
Garoupa confitada [emulsão de bacuri] 
(receita para 10 pessoas)
 
INGREDIENTES

- Lombo de bacalhau: 2 Kg
- Alho francês picado: 150 g
- Alhos picado:  5 dentes
- Tomate seco picado:  1 c. chá
- Sumo de limão:  1 dl
- Azeite Virgem extra q.b.
- Sal Marinho tradicional q.b.
- Pimenta do reino  q.b.
- Fava de tonka (cumaru) q.b.

 
EMULSÃO 
 
- Polpa de bacuri: 300 gr
- Alho picado: 20 g
- Azeite virgem extra: 1 dl
- Cebola picada:  100 g
- Vinho branco: 1 dl
- Sal marinho tradicional q.b.
 
GUARNIÇÃO
 
- Cogumelos Shitake em metades 500 gr
- Espinafres em folha  500 g
- Salsa picada: 1 c. sopa
- Azeite virgem extra  0,5 dl
- Sal marinho tradicional  q.b.
 
MONTAGEM
 
Tempere o peixe com sal, pimenta e fava de Tonka e sumo de limão e deixe repousar 10 min. Coloque o azeite a aquecer num sauté, adicione o alho francês, o alho e o tomate seco. Junte o preparado ao peixe, leve ao forno, tapado com folha de alumínio, a  150ºC durante  20 min. 
Aloure a cebola e o alho em azeite e em lume muito brando. Refresque com vinho branco e junte polpa de bacuri, deixe reduzir. Rectifique temperos e leve ao liquidificador até atingir uma textura homogénea. 
Salteie os cogumelos e os espinafres em azeite, tempere com sal e perfume com a salsa e sirva juntamente com o peixe e a emulsão.
 
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