Não escondia mais a aflição. As mãos entrelaçadas, os pés nervosos, o pescoço teso. Não via a hora de revê-la, não via a hora de abraçar a mulher. Por pouco não abre uma vala no assoalho do aeroporto de tantas idas e vindas trilhadas com a espera, já insuportável nos últimos minutos.
Em três anos, houve uma série de quase interações entre os dois. Sinal de celular escasso, acesso à Internet variante, postais enviados do fim do mundo, ligações insossas, rápidas, interrompidas. Tudo sem muita regularidade, aos tropeços, na base do “se der, deu, se dá, dá” e do “outra hora a gente conversa”.
Do lado de cá, ele costurava os retalhos lançados nesse diálogo surdo e mantinha a chama acesa, contrito, aplacando a agonia com sessões de cinema sozinho, imerso em leituras demoradas, colecionando poemas para um dia entregar; numa clausura voluntária com direito a vagar no mundo dentro da bolha invisível criada por ele para manter a memória viva, perfumada, longe da oxidação.
Já ela, aprisionada em distância voluntária, vivia. Desde que tirou os pés de Belém, num janeiro que já nem lembrava, foi só o que fez. Provou de tudo, andou por todas as cidades sonhadas, falou todas as línguas, viu a humanidade em todas as cores. E de tanto viver em sonho palpável já não se reconhecia como parte da realidade abandonada há três séculos, e não três anos como contavam os calendários.
Por essas e outras, a espera para um era eternidade e a chegada, para a outra, uma reprise da Sessão da Tarde. Para ele, os poucos minutos que faltavam para o avião pousar duraram talvez mais do que a espera inteira iniciada quando aquela moça de finos cabelos, jeans, casaco amarrado na cintura e tiara rosa acenou pela última vez ao entrar na sala de embarque. A imagem virou uma fotografia dolorida de quem vai certo de nunca mais voltar por ter se transformado em outro, já no princípio da partida.
Na poltrona, a dor sentida por ela era nas costas. E ouviu o comissário avisar do pouso, da temperatura e do tempo do lugar que ela remodelou nas lembranças enquanto esteve fora. Não havia ansiedade nos gestos, nem lágrima nos olhos, nem a música do Dominguinhos solfejada pela Elba em reverência e tristeza. Queria descer, esticar-se, rever os seus, distribuir abraços, sentir o bafo quente, infernal, da sua origem. Deseja, de fato, saber o que houve; quem morreu; quem nasceu; quem casou; quem separou. Interessavam os muxoxos, sinal claro de quem não dissipou antigos hábitos mesmo perdido em outros mundos.
Quando ela saiu da aeronave tirou as camadas de roupa para se adaptar ao calor da terra e, ao chegar à esteira de bagagens, já estava sem os panos pesados de quem esteve no frio. Do saguão, ele pôde enxergá-la. O peito disparou. Não pelo reencontro, mas pelo choque, pela comparação com a figura que partiu com a figura que voltou. Cruzou a porta de vidro e se pendurou no pescoço dele. Envolveram-se em um abraço na tentativa de reparar a lacuna de mais de mil dias sem se ver. Engordaste, ela disse. Teu cabelo mudou, ele respondeu.
Calados, guardaram as malas no carro e partiram para casa. Estavam livres da tensão do reencontro, apartados das reações ensaiadas, com o coração aos pulos e as primeiras perguntas presas no céu da boca. E certos de que não sabiam mais o que fazer um com o outro.
