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Dira Paes, dona do tempo

Logo depois de completar três anos, o apaixonado vascaíno Inácio deu o ultimato como só as crianças sabem fazer. Queria um irmão para brincar. O menino precisou esperar um pouco. Quase quatro anos, para ser remotamente preciso. Foi só na segunda metade de 2015 que Martin chegou. E a mãe, Dira Paes, precisa achar lugar no corpo e na mente para tanta felicidade que, aos que se aproximam dela, é visível perceber.

“Engravidar e ser mãe me transformaram. Sinto como se tivesse ganhado fôlego para ser mais mulher”, diz ela, numa tarde de outono, em que as chuvas deram uma trégua aos cariocas, assim como o calor do verão. Dira toma uma água de coco enquanto cabelo e rosto vão sendo preparados para uma sessão de fotos feita na Marina Barra Club na Barra da Tijuca.  É um processo um pouco demorado, mas que em nenhum momento a torna impaciente ou mal humorada. O tempo, agora, é aliado de Dira. Ela sabe disso.

Em tudo o que a atriz paraense fala, lembra, projeta, há o tempo como personagem coadjuvante. Já foi um tanto inimigo. Hoje é aliado. “O tempo é nosso tesouro”, avalia. Atualmente quando sobra tempo, ele é todo dedicado à família. Ou clã, como ela gosta de chamar.

Dira sempre achou que seria mãe ‘supercedo’. “Mas não acontecia. Vim a ser agora, mais pra cá, ou seja, as coisas acontecem no momento certo. Estou há dez anos com o Pablo e eu achava que não iria mais conseguir ser mãe. De repente aconteceu e foi lindo”. Dira é quem comanda esse pequeno clã. Os nomes dos filhos mostram como se dá a vida da atriz hoje. “Inácio, nome de santo, é porque você já pronuncia sorrindo. Martin por causa do pássaro, o martin pescador”. Quem está vivendo isso como um encantamento profundo são os sogros, avós de primeira viagem. “Meu sogro diz que ser avô é tão bom que se pudesse teria pulado para essa fase direto”.

Como todos, o que há em Dira são múltiplas vozes, miríade de sensações. Dira é uma mulher relativamente pequena, longe dos estereótipos do ‘mulherão’ que habita um controverso imaginário masculino brasileiro. Mas é só testemunhar a relação que ela tem com a câmera para perceber que Dira tem a exata noção do que é e de onde está. Às lentes do fotógrafo, Dira vai sendo moldada. O olhar é fundo. O sorriso é enigmático. De repente, o que se tem é uma mulher plenamente sensual e com perfeito domínio da relação com a câmera. “Ela gosta de mim e eu a respeito”, resume Dira. Simples (?) assim.

A atriz que se diz ‘média’ leitora, é capaz de discorrer sobre Dalcídio Jurandir e Milton Hatoum e emendar dizendo estar ‘louca’ para ler o novo livro de Edyr Augusto. E traçar vários paralelos que percebe na atual novela das nove. Dira entrou na passagem de tempo de 40 anos da trama.

“Beatriz é uma professora que dedica a vida aos alunos. Uma mulher que nasceu com essa vocação. E eu acho que somos assim: ninguém escapa ao próprio destino”.

Por enquanto Dira se deleita com o que tem visto todos os dias na televisão. “É um longa-metragem a cada dia. Eu acho que o público tem o direito de não gostar, mas eu gostaria muito que ele fosse ao encontro da lógica dessa outra realidade que a novela mostra. É uma obra que viaja num tempo imanente, elizabetano. Eu reconheço essa fantasia armorial, de Ariano Suassuna, de Shakespeare, de Guimarães Rosa. Tenho bebido direto nessa fonte todas as noites”, empolga-se.

Ela diz ainda estar com as palavras do diretor Luís Fernando Carvalho na cabeça. Ao falar a Dira sobre a personagem Beatriz, Carvalho enfatizou que ela era o próprio amor e não uma personagem romântica. “Olha a responsabilidade disso”, espanta-se Dira, com um sorriso e um brilho nos olhos que dizem algo como ‘deixa comigo’.

Ter esses desafios é o que impulsiona Dira. Foi algo similar ao que o diretor Jorge Furtado lhe disse quando ela se preparava para gravar ‘Meu tio matou um cara’. O personagem de Dira era uma pessoa feliz, leve, a mãe que equilibrava uma família negra de classe média.

Quase o oposto de tudo o que Dira fizera até ali nas telas de cinema. Como o denso papel da mãe lutadora e pé no chão de ‘Os dois filhos de Francisco’, um filme que até hoje orgulha Dira. “Foi visto por seis milhões de pessoas. E levou muita gente ao cinema pela primeira vez”.

Para quem tem mais de 30 anos de carreira, são esses desafios que a fazem levantar da cama todos os dias. “Meu desejo é sempre o de fazer coisas diferentes, uma novidade ou um caminho por onde não passei. Eu me dou o direito de escolher personagens”.

E essa é mais uma aprendizagem trazida pelo tempo. “Quando se é mais jovem a gente é meio levado como folhas no vento. Com o passar dos anos, o tempo se torna aliado, porque nos ajuda a fazer escolhas”.

Nem sempre é fácil. Dira sempre avalia que cada escolha implica abrir mão de outras coisas. Mas o risco vale a pena. Como a decisão de mudar de casa. “Tive a sorte de trocar um apartamento em Botafogo por 20 árvores. É o meu recanto, sou apaixonada pelas árvores. Quando mudei de Botafogo eu queria sol. Então, fiz uma casa sem derrubar nenhuma árvore e ainda tenho uma dentro de casa”.

Escolhas. Um seguir em frente. Às vezes olhar para trás, ter alguns arrependimentos, muito poucos, como na letra de My Way, imortalizada por Frank Sinatra. “Ah, eu me arrependo de não ter morado fora um tempo quando mais jovem ou de não ter ousado mais em montar espetáculos meus”. O comentário vem sem nenhuma mágoa. Era para ter sido. Não foi. Segue o barco.

A segurança talvez tenha vindo do próprio começo de carreira. ‘Cinderelesco’ é a palavra escolhida por Dira para classificar como tudo começou. “Eu já iniciei numa produção de 45 milhões de dólares (A Floresta de Esmeraldas). Eu sabia que estava trabalhando com o diretor de Excalibur (John Boorman). No meu segundo filme (Ele, o boto) entendi que tinha ali o privilégio de estar sendo dirigida por Walter Lima, diretor de um dos meus filmes preferidos, a ‘Lira do Delírio’. Na verdade, é isso, eu sempre valorizei o trabalho com os diretores”.

Tão ‘cinderelesco’ que Dira comemorou os 16 anos num set de cinema. Vinte prêmios depois e participação em dezenas de produções para cinema, tv e teatro, embora em menor escala, Dira é uma das atrizes a quem já foi dito ser a ‘cara’ do novo cinema nacional.

São afirmações que ela minimiza. Tenta manter os pés no chão. Em 2006, ao ser homenageada em Rondônia durante uma edição do Cineamazônia, em Porto Velho, fez questão de ir a um dos bairros de periferia onde havia exibição de filmes ao ar livre. À época, Dira fazia sucesso com a destrambelhada Solineuza, de ‘A Diarista’. O buchicho se fazia ouvir, mas Dira, sorriso nos lábios, dizia que o importante era o filme na tela, não ela, numa rima improvável.

“No Rio é mais comum de se ficar tranquilo, mas quando o personagem é contundente, como a Celeste, de Amores Roubados ou a Lucimar, de Salve, Jorge ou ainda a Norminha de Caminho das Índias, aí a gente sente mais a pegada da resposta do público”, avalia Dira. Manter esses pés no chão é o que a faz sempre ir ao cinema, coisa que ela não abre mão. “Ficar aquele tempo no escurinho, entrar em outro mundo. Isso tem sempre uma magia”.

Mesmo assim, acompanha algumas séries. Breaking Bad, Black Mirror, House of Cards, Orange is a New Black e Narcos estão na lista dos que ela acompanhou. Mas admite que ver em casa e ser interrompida não é o que prefere. “O cinema é minha higiene mental, mas eu quero estar inserida nesse mercado, principalmente porque hoje as fronteiras dos formatos audiovisuais são muito relativas”.

Uma hora depois de iniciada, a sessão de maquiagem e cabelo termina. É inevitável olhar e lembrar a personagem Celeste, de Amores Roubados. Dira se sente à vontade nesse papel de mulher sensual, desejável, voluptuosa. “Imagina, amei estar na capa de O Globo, com o fotão na primeira página”, brinca. Depois avalia que o mundo parece estar mais aberto a esse tipo de beleza latino. “Acho que as morenas ganharam uma atenção maior nos últimos anos”, diz, para logo depois ir citando Jennifer Lopez, Beyoncé, Eva Mendes, Morena Baccarin. “Mas tem a Scarlett Johanssen, que fica bonita de qualquer jeito. Dá uma raiva”, ri, divertindo-se com a lembrança e com o comentário típico de mulheres em roda de conversa desencanada.

 E volta o tempo a estar presente. Dira afirma que tem muitos planos, muitos desafios ainda. No tempo certo, na medida exata. “Sempre penso que o melhor ainda está por vir para mim”. Alguém duvida?

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