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Em nome do amor

Os bebês têm algo de fascinante. Talvez seja o olhar meigo, a fragilidade, o sorriso terno ou aquele cheirinho característico de talco. Não há quem resista à presença deles e há até quem assegure que uma família só se torna completa com a chegada de um bebê. Entretanto, passar para essa etapa exige disciplina de determinados casais, que, por algum motivo, não conseguem ser pais naturalmente.
É o caso dos servidores públicos Dirce Nascimento, 41, e Domingos Rodrigues, 45, casados há quatro anos. “Sempre quis ser mãe, mas não encontrava a pessoa certa”, declara Dirce, explicando por que esperou para ter filhos após os 40. Com a relação sólida e depois de ter aproveitado a vida a dois, ela e o marido acharam que faltava algo em suas vidas e decidiram tornar-se pais, apesar de Domingos já ser pai de um rapaz de 17 anos.
A escolha do casal implicou em uma decisão que Domingos fez há 15 anos. “Como ele fez vasectomia, a forma mais rápida de eu engravidar seria por meio da fertilização in vitro”, explica a esposa, uma vez que era possível reverter o processo, embora com menos chances de ela engravidar naturalmente.
Nesse momento, o casal passou a pesquisar sobre o assunto e resolveu procurar um especialista para esclarecer as dúvidas e realizar o processo. “Infelizmente, nosso primeiro contato com um profissional da área não foi positivo. Mal entramos na sala e ele foi logo falando o valor do procedimento. Aquilo foi uma ofensa para a gente. Nossos filhos não têm preço”, relembra o pai, dizendo que depois encontraram outro médico, que realmente entendeu o desejo que eles tinham de se tornarem pais.
Menos de um ano depois de iniciar o tratamento, Dirce engravidou, e de gêmeos. “A nossa primeira tentativa foi em dezembro de 2009 e eu não engravidei. Confesso que fiquei um pouco triste, mas, na segunda tentativa, em abril de 2010, eu estava mais tranquila. Foi quando engravidei dos meus filhos amados”, afirma a mãe. O resultado da fertilização in vitro, feita, na época, em São Paulo, trouxe ao mundo o belo casal Mateus e Isabela, que hoje estão com cinco meses – ela um minuto mais velha do que o irmãozinho.

Limites

O médico Arivaldo Meireles, que trabalha com técnicas de fertilização, atende em sua clínica cerca de 200 casais por mês, dos quais 25% são novos pacientes. Para que se obtenham bons resultados, alerta, a mulher deve fazer o procedimento até no máximo chegar à faixa de 40 anos. “Esse é o indicado, mas o importante é que cada mulher seja avaliada clinicamente para ter seu limite estabelecido”, aconselha.
Meireles, que trabalha com técnicas de fertilização desde 1992, esteve também na Europa, em Valência, no Instituto Valenciano de Infertilidade, e em Barcelona, no Instituto Dexeus, onde atuou como “fellow”, acompanhando os procedimentos com médicos renomados na área. Em 1997, retornou para Belém e continuou trabalhando com as técnicas. Em 2006, voltou a trabalhar em São Paulo, no Projeto Alfa - Laboratórios  de Fertilização Humana Assistida, no qual viajava mensalmente com os casais que atendia na época, para fazer a fertilização em território paulista.
Em setembro de 2010, Arivaldo Meireles inaugurou a Clínica Pronatus. Agora, é possível realizar todos os procedimentos na capital paraense. No total, existem dois tipos de fertilização in vitro. Uma é a chamada ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoides) e a outra, FIV, mais conhecida como “bebê de proveta”. A diferença é que, na fase de manipulação dos gametas, ou seja, na união do espermatozoide com o óvulo, a FIV se dá em uma incubadora especial que reproduz o ambiente similar ao da tuba uterina, onde milhares de espermatozoides nadam em volta do óvulo e somente um o penetra e fertiliza. Na ICSI, um único espermatozoide é injetado no óvulo, por meio de uma agulha, promovendo a fecundação.
Além desses dois procedimentos, existe ainda a inseminação artificial ou intrauterina, que consiste na introdução de espermatozoides selecionados em laboratório no útero, processo que é “mais normal” do que a fertilização, pois apenas facilita a chegada do espermatozoide à cavidade uterina. Há ainda a indução de ovulação e o tratamento da infertilidade masculina.
Com o avanço da tecnologia, Arivaldo Meireles declara que hoje praticamente não existe paciente que não engravide. “Em última instância podemos recorrer ao uso de gametas doados por terceiros anônimos ou até mesmo usar um útero de aluguel”, afirma. Os riscos são pequenos e por vezes é necessário que o casal faça uma triagem psicoafetiva, para resolver problemas que podem afetar o processo da gravidez.
De fato, o progresso da medicina foi imprescindível para que casais – naturalmente inviáveis – pudessem realizar o sonho de formar uma família. E esse avanço, além do prêmio máximo, ainda permite planejar melhor a chegada da criança, não apenas financeiramente, mas psicologicamente, a fim de que pais e filhos possam gozar de todo o amor e carinho que só a genética explica.

Expectativa

Outro casal que obteve sucesso em duas técnicas de fertilização distintas foi a funcionária pública Nádia Jorge, 45, e o marido, também funcionário público, Carlos Jorge, 41. Eles são pais de duas crianças, Gabrielle, de 4 anos, que foi gerada a partir do procedimento de fertilização in vitro, e Bernardo, de 1 ano, que foi de inseminação artificial.
O método da Gabrielle foi feito inteiramente em São Paulo e o do Bernardo, em Belém. “Quando decidi engravidar pela primeira vez, descobri que tinha alguns problemas, tanto que precisei fazer uma cirurgia para poder iniciar o procedimento, mas nunca vi nada como um problema. Sempre tive pensamento positivo que tudo ia dar certo”, declara.
O bom humor e a tranquilidade da Nádia renderam a ela uma gravidez na primeira tentativa, que foi por fertilização in vitro. “Não adianta querermos atropelar o tempo e nos desesperar. As coisas acontecem no tempo de Deus e não no nosso”, afirma, revelando que perdeu um bebê poucos meses depois de engravidar naturalmente, quando Gabrielle tinha 1 ano.
Quando Gabrielle completou 4 anos, Nádia fez a inseminação e engravidou do Bernardo, mas dessa vez na segunda tentativa. Ela conta que sempre levou tudo com muita leveza, sempre com a participação do marido, que, diz, a ajuda a cumprir o terceiro expediente quando eles chegam em casa. Até Gabrielle completar 1 ano e três meses, os dois cuidaram dela sem a ajuda de babás.
Depois dos procedimentos de fertilização, Nádia decidiu fazer laqueadura tubária para não engravidar mais. “O planejamento é essencial para manter a boa estrutura familiar. Assim como me estabilizei financeiramente para poder oferecer uma educação melhor para os meus filhos, acho importante saber quando parar”, afirma a mãe, que, mesmo assim, ainda pensa um pouco sobre a possibilidade de um novo bebê.
E o que fazer na hora de contar para os bebês quando eles vierem com a célebre pergunta: “Mãe, pai, como foi que eu nasci?”. Os dois já decidiram: vão contar aos filhos a verdade. “Afinal, eles foram muito desejados”, justificam.

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