Vejo na principal revista semanal do meu país uma grande matéria, com direito à capa da publicação, sobre uma realidade cada vez maior no Brasil, a disputa pelos empregos públicos através da disputa de concursos. Dados da reportagem desta revista dizem que mais de 12 milhões de brasileiros devem disputar algo em torno de 70 mil vagas oferecidas na esfera federal de governo. Se juntarmos às vagas oferecidas nos Estados e nos municípios, o número multiplica por sete e o total de aspirantes passa folgadamente dos 70 milhões de pessoas querendo de uma forma ou de outra trabalhar para o governo
Confesso que gostaria de muito de ver uma pesquisa com estas pessoas. Queria muito ver um estudo sobre o que pensam esses milhões de brasileiros que buscam na administração pública a sua atividade profissional. Será que conhecem o cargo? Será que conhecem a natureza do trabalho? Entendem as atividades dentro do contexto de uma máquina pública que precisa prestar serviços para uma sociedade tão complexa?
O que é mais importante, será que buscam esses postos conscientes de que precisam contribuir diretamente para o país funcionar? Sabem do compromisso com a população e com o contribuinte que será o seu patrão? Ou será que o que determina tudo é a estabilidade, a segurança no emprego, o salário bom e certo no fim do mês, o horário rígido para entrar e para sair da repartição e as férias e outros benefícios garantidos todos os anos?
Setenta milhões de pessoas, mais os milhares de professores e donos dos cursinhos preparatórios, as empresas de apostilas, toda a economia que gira em torno dos concursos públicos, representam uma fatia muito representativa da população nacional, capaz de criar uma verdadeira cultura em relação ao tema serviço público, emprego, trabalho, renda, Brasil.
É evidente que o concurso público é a forma mais democrática, imparcial e menos injusta de selecionar as pessoas que têm direito a ocupar as vagas ofertadas pelo Estado, mas esse movimento todo em torno disso gera uma outra reflexão importante. A disputa cada vez mais acirrada acaba selecionando os que têm capacidade de acumular conhecimento, de ter mais disciplina para estudar, os que decoram todos os programas e milhares de matérias exigidas nestes certames. Centrando a escolha de seus servidores neste tipo de processo seletivo, dificilmente o país, o estado ou a cidade vai atrair para o serviço público um tipo pessoa indispensável para qualquer organização crescer: o empreendedor.
Até para ser porteiro de condomínio uma pessoa tem que ter algo de empreendedorismo, precisa ter iniciativa, ter capacidade de inventar. O Brasil precisa de pessoas com empreendedorismo em sua máquina pública, pessoas com ousadia, com capacidade de arriscar, de investir em inovação, de serem empresários de suas carreiras, seja de escriturário, de enfermeiro, de professor ou seja de auditor da receita federal.
A gente espera que entre os milhares de selecionados existam muitas pessoas com capacidade de questionar, de corrigir rumos, de não se conformar, de buscar saídas que não estejam no manual de instruções e nos regimentos internos. Os concursos poderiam até incluir algumas questões tentando identificar estas habilidades e atribuir significativo peso para quem se sair melhor nestes quesitos.
Os cargos do Executivo e do Legislativo que não são ocupados por concurso, mas sim por processo eleitoral ou indicação de confiança, deveriam atrair gente que está brilhando nas universidades, na iniciativa privada, nas organizações não-governamentais. Por uma quantidade enorme de razões procedentes e outras oriundas de distorções, acabam colocando muita gente sem preparo e afastando do setor público pessoas que poderiam contribuir muito para a evolução da nossa sociedade.
A área pública precisa pagar muito bem, fiscalizar e cobrar muito bem de seus servidores. É preciso acabar com um senso comum cada vez disseminado de que para trabalhar no governo a pessoa tem que ganhar pouco. Precisamos, sim, de gente que preze o bom emprego, a segurança, a estabilidade, a aposentadoria integral, mas o que vai fazer o Brasil melhorar mesmo é gente que procure ocupar o seu tempo nestes bons empregos com muito trabalho. Criativo, inventivo e inquieto trabalho.
