
Ele tem a voz forte, poderosa e só isso poderia intimidar quem não conhece. Os traços físicos e o rosto sisudo também são marcantes, mas basta uma breve conversa para perceber que tudo não passa de uma primeira impressão – daquelas que não ficam. Estamos falando do ator Milhem Cortaz, 41 anos, que coleciona, sem exageros, um número expressivo de longas – muitos dos quais sequer estrearam ainda no grande circuito, embora tenham sido gravados há algum tempo e todos com excelentes críticas.

Descendente de italianos e árabes [mistura que justifica muito os traços físicos marcantes e a visceralidade de sua atuação], Milhem é um ator com relativo tempo curto de carreira, mas que despejou no universo artístico toda sua boa transgressão.
Conhecido como o corrupto capitão Fábio [o “02”, do bordão “pede pra sair!”] do sensacional “Tropa de Elite”, o ator certamente figura na memória do público com seus personagens truculentos, densos... mas, na leva dos filmes que ainda estrearão, o público deve ficar preparado para se surpreender com as segundas, terceiras impressões. Porque elas virão.
Qual a origem do teu nome? (Lê-se Milem)
É libanês. O meu nome é Milhem Avance Cortaz. Primeiro nome é libanês. O do meio, italiano. E o Cortaz é libanês, também. Venho de Baskinta, uma cidade lá no Líbano, que fica a 70 km do conflito... Só explicando: não nasci lá. Sou descendente de libanês, meu avô veio de lá.
Conheces a cidade?
Nunca. Morro de vontade, mas quero ir. Não agora... (risos)
Tens parentes morando lá?
Não.. olha, eu achei um Cortaz lá. Eu tinha esquecido o nome da cidade e há três meses perguntei novamente pra minha tia e fui pro Google e é uma cidade deslumbrante, perto de montanhas, rústica...
Para quem começou - de maneira recente [o ator começou a gravar uma película atrás da outra a partir do ano 2000], você é lembrado muito pelos personagens brutos, pesados - você tem receio de ser rotulado? Ou não concordas com essa afirmação?
Não, não tenho receio. Eu tenho receio de não trabalhar, de não ter o que comer... Acho que já consegui reverter muito isso dentro do cinema. Lutei muito contra isso no início. Abri mão da minha vaidade em pensar “pô, lá vou eu fazer outro personagem denso, pesado”, mas sou apaixonado por personagens problemáticos e essa foi uma forma de me aproximar dos diretores, fazer com que me conhecessem mais para que eu pudesse dizer em um outro filme deles: “olha, eu vou adorar fazer aquilo ali”. E ele pensar: pô, o Milhem não é só aquilo, ele consegue fazer personagens menos pesados, truculentos.
Inclusive há vários filmes teus [que já gravaste há algum tempo] que estão estreando agora, não é mesmo? E o público vai conhecer personagens teus mais suaves...
Não sei se mais leves, mas o público vai conhecer personagens densos, mas não ligados à marginalidade, como as pessoas enxergam... São personagens mais tranquilos. Eles vêm com o tempo. É aquilo que meu mestre de capoeira dizia: “quem corre, cansa e quem anda, alcança”. Eu vou devagar e... não me importa chegar logo lá. O que me importa é estar sempre no trajeto para o caminho até lá. Se me deixarem trabalhar a vida inteira, eu sempre estarei disposto. Não me importo com essa coisa de “rótulo”.
Dos filmes de que participas e que ainda vão estrear [Trinta, Sangue azul, O Gorila, Mundo Cão, O Lobo atrás da porta], qual deles pode surpreender muito o público?
“O Lobo atrás da porta é surpreendente! Além da própria qualidade do filme, o personagem é diferente. É um cara mais delicado... é um triângulo amoroso. Falamos de amor, de segurança, essas coisas... Tem ainda o Trinta [cinebiografia do carnavalesco Joãosinho Trinta, vivido pelo ator Matheus Nachtergaele] e o Tião [chefe do barracão da escola de samba Salgueiro], que é um personagem bem delicado e que vive uma traição... ele é traído pela comunidade já que, com a saída do Pamplona [então carnavalesco da escola e vivido pelo ator Paulo Tiefenthaler], o Tião pensa que, por ter nascido ali e ser totalmente devoto da comunidade, a hora de ele ser o carnavalesco havia chegado! Aí o Joãosinho chega... É como se fosse uma traição familiar... Tem ainda o filme do Lírio [Ferreira, diretor também de “Cartola – música para os olhos”], “Sangue Azul” [que foi filmado em Fernando de Noronha]... o personagem que vivi [Inox] vai entrar na galeria dos meus mais queridos, porque ele é o homem mais forte do mundo, mas ele é gay e cuida do circo, das pessoas. Foi um personagem muito difícil, mas de uma delicadeza... talvez o personagem mais delicado que eu já fiz. E complexo.
E na tua “galeria dos mais queridos”, se pudesses eleger cinco personagens, quais seriam?
Elegeria o Lino, do “A Concepção” [filme do diretor José Eduardo Belmonte e contracena também com Matheus Nachtergaele], o que personagem que fiz em “Meu mundo em perigo” [filme de 2007, também do diretor José Eduardo Belmonte. Cortaz interpreta Fito. Uma curiosidade: o ator trabalha pela segunda vez com o diretor José Eduardo Belmonte contracena – também pela segunda vez – com a atriz Rosanne Mullholand. O primeiro encontro dos três foi em “A Concepção”, filme de 2005]. Gosto muito do Edgar, de Querô [filme de 2007, dirigido por Carlos Cortez]. O Inox [de Sangue Azul] e, claro, o Bernardo, do Lobo atrás da porta. São personagens muito díspares uns dos outros. Tenho um carinho enorme por esses personagens porque foram os mais difíceis. Apesar dos populares... não posso deixar de falar do Peixeira [personagem que Cortaz interpretou em “Carandiru”], que foi o meu primeiro.
Falando dessa construção de personagens, fala um pouco sobre a construção do teu personagem de “Plano Alto” [minissérie que será exibida pela TV Record]. Contrataste um professor e ficaste um tempo estudando, não foi?
Eu não domino televisão. Ela me engessa e eu não me sinto ainda completamente à vontade nele. Daí, eu queria me preparar da melhor forma possível, para quando os obstáculos aparecessem, eu conseguisse enxergá-los e dominá-los. Então, me preparei bastante, até porque eu gosto de me preparar e estudar. Era um personagem delicado, até porque é um deputado federal honesto, dentro da política – o que é uma coisa improvável de existir. E o personagem representa muito a minha geração, que falava sobre democracia... então eu queria que ele fosse o mais próximo possível do meu discurso... me coloquei nessa situação e eu precisei mergulhar no pragmatismo, que é não ter julgamento. O que serve pra gente, a gente vai atrás. O Pragmatismo te ensina a ter mais razão e eu precisava ter uma pessoa ao me lado que me alertasse “você tá indo pelo coração”. E pragmatismo não é isso; é um raciocínio lógico e racional. Então, eu precisava de uma pessoa muito próxima e que me conhecesse, que era o Ivan Feijó, que é um dos meus melhores amigos, se não for o melhor, e é um diretor com quem eu trabalhei no teatro e me conhece perfeitamente. Ele me tirou do lugar comum e me conduziu pelo caminho. Me agrada muito o que fiz em Plano Alto, mas sei que posso melhorar. Graças a Deus tem uma segunda temporada a caminho. Vou continuar com o Ivan e consertar o que precisa ser melhorado. É um exercício até meio egoísta, de aprimoramento como ator. Plano Alto tem sido uma grande escola – guardar o que há de melhor em mim, me expor de novo e tentar vencer algumas coisas que não consegui. E para conseguir isso, preciso de alguém ao meu lado. Que veja as coisas de fora e me indique o caminho a seguir – sozinho eu não vou conseguir. Não preciso de uma pessoa que passe a mão na minha cabeça, mas que me critique e me faça crescer.
Disseste que a TV te engessa muito, mas o que te encanta mais? Televisão, cinema ou teatro?
Minha preferência sempre será o Teatro, mas adoro transitar por essas linguagens e a TV, hoje, me instiga muito. Sinto frio na barriga e nervosismo muito grande porque eu não domino e estou aprendendo.
Como foi conviver com o Ruy Guerra? Pelo menos em três dos filmes contracenas com o Mateus [Nachtergaele]... há algum ator/atriz com que tenhas contracenado tanto que ficaste amigo?
O Ruy Guerra [cineasta] é uma aula. Oitenta e poucos anos, completamente apaixonado pela profissão. Tem um olhar delicado além de ser receptivo. E eu convivi com ele como ator e não como diretor... logo, frágil, se expondo, errando... Aos oitenta e poucos anos sem medo de se expor e errar.. foi uma aula pra mim, que tenho 40 anos. (risos). Ele foi muito generoso. Fiquei muito amigo do Matheus, do [Juliano] Cazarré...
O Cazarré, inclusive, morou contigo um tempo, não é?
Ele morou um tempo aqui. Foi muito legal. É meu grande irmão e eu tenho um p... orgulho do ator que ele é. Acho brilhante a maneira como ele conduz a carreira e a vida pessoal. Tenho certeza de que ele vai fazer história no universo artístico.
Costumas contar que teu pai trocou o terno por uma vida pacata, tranquila [o pai, também Milhem, foi administrador de empresas por vários anos e hoje vende cachorro quente]. Já pensaste alguma vez em qual carreira abraçaria se não fosses ator? Ou mesmo quando decidir aposentar?
Eu descobri isso há três anos, mas já era tarde demais! Eu seria arquiteto, porque me apaixonei mesmo. Não cogito entrar numa faculdade para cursar Arquitetura... Talvez por hobby. Agora como profissão alternativa... Eu me dedico muito à minha profissão. Não sei nem fazer massagem! (risos) Como bom libanês, árabe, eu sei vender. Passar fome eu não vou. A única que eu sei fazer é ser ator.
Verdade que eras considerado rebelde pelos teus pais?
Verdade. Como toda criança, né? Imagina, aos dez anos de idade, ter a personalidade que eu tenho, né? Paguei preços altos por isso. Comigo mesmo. Me coloquei em situação que poderia ter evitado – de rebeldia, transgressão – mas aprendi muito com isso e hoje entendo que para você ser muito louco, você tem que ser muito organizado. E não à toa tenho uma família maravilhosa. Vivo há 15 anos com minha mulher [a atriz Ziza Brisola], tenho uma filha maravilhosa, que educo da melhor maneira possível. Estou vencendo no que me propus a fazer e canalizo minha “transgressão” para a arte. Entendo bem o tamanho que eu ocupo e sei conduzir muito bem – se não, não estaria onde estou.
A reviravolta na tua vida ocorreu no dia em que conheceste o Walmor Chagas em um encontro da igreja? Quando foi isso?
Eu nem sabia quem era o cara! Um dia, brincando de teatrinho num encontro de jovens da igreja, ele entrou, olhou pra mim e me convidou para fazer uma peça com ele. Isso ficou em mim e quando fui morar na Itália, fiz um curso de Teatro e nunca mais saí. Escolhi como a grande opção da minha vida. O Walmor é um cara muito importante na minha vida. Ele e o Lauro César Muniz [escritor], porque era uma peça do Lauro César. Anos depois, o primeiro grande personagem que vivi, foi numa novela do Lauro. E viramos grandes amigos. Mas o Walmor foi quem plantou a primeira sementinha.
Que personagem te desafiaria? Digo, tem algum personagem que habita [em segredo] teus sonhos de ator? Qual é ele?
Todos que vierem a partir de agora. Quanto mais você trabalha, mais você adquire experiência, sabedoria, repertório etc. Mas, ao mesmo tempo, mais você se usa e o processo vai ficando difícil.
Quais são os teus planos para 2015?
Ah, eu tenho “Plano Alto”, o filme do Zé Aldo, com a direção do Afonso Poyart... O primeiro semestre vai ser tomado pelo Plano Alto 2 – a segunda temporada da série, que é do mestre Marcílio [Moraes], que é um grande parceiro e eu já fiz muita coisa dele. Sei que ele tem um carinho especial por mim e que nunca duvidou do meu trabalho. Eu quero fazer Teatro. Quero fazer “O patinho feio”, que é um projeto para crianças e que minha mulher vai dirigir. O cenário é assinado pelos Gêmos [artistas plásticos], tens umas coisas legais... Se Deus quiser, ano que vem sai. Quero voltar a fazer teatro, depois de cinco anos e quero fazer algo lúdico – para crianças, até para minha filha poder me ver.
Tens também alguns projetos independentes, não é? Já fizeste videoclips...
Fiz o vídeo clipe do [MC] Rachid. Fiz da Rollbando [do fotógrafo Bernie Walbenny, que assina as fotos desta entrevista]. Amanhã, vou gravar o da Tiê. Adoro ajudar, adoro estar junto. Adoro gente pensante. Da mesma forma que alguém me ajudou lá atrás, eu quero agregar. Se eu tiver tempo e curtir, vambora!
O que tu ouves?
Gosto de rap, música clássica, black music. Gosto de funk black. Ouço muito Marvin Gaye.
Tens um hobby ou algo que gostes de fazer quando tens um tempo livre?
(Ele silencia, pensa e demora um tempo para responder) Eu tô aprendendo um hobby maravilhoso: a não fazer nada...
É um exercício difícil, não é?
Nossa, você pode achar que está sendo inútil, esquecido... mas não fazer nada é produtivo e é bom, mas é um exercício porque, embora seja “nada”, aquilo é tudo. Os meus tempos livres são tomados por minha filha, pela educação. O meu grande hobby hoje é aprender a estar só comigo. É o que mais almejo.
Agradecimento: Bernie Walbenny
