
Foto: GQ Foto Estúdio
Fotografia é a técnica de criar imagens por exposição luminosa em uma superfície fotossensível, tecnicamente explicando. Mas ela vai além, se transmuta. Torna-se o meio pelo qual o indivíduo prolonga um momento, reavivando-o, sempre que desejado.
Em tempos de comunicação ágil e de muito apelo visual, a fotografia ganha status, podendo ser ou não arte – tudo depende do contexto, do momento, dos ícones envolvidos na reprodução. Cabe ao observador interpretar a imagem, acrescentar a ela seu repertório e sentimento. Do outro lado, atrás da lente, é preciso ter sensibilidade para registrar um momento único, singular. O fotógrafo recria o mundo externo por meio de uma realidade estética, onde fotografar é colocar – na mesma linha de mira – a cabeça, o olho e o coração.
É justamente dessa emotividade que se alimentam os ensaios fotográficos de noivos. A prática se tornou uma tradição, um item a mais na lista de tantos outros igualmente indispensáveis nas preparações para o grande dia, com o intuito de registrar [e eternizar] a cumplicidade, a intimidade, a troca de olhares, os carinhos a dois.

Foto: Walda Marques
Buscando um resultado diferente e único, esse momento especial está assumindo apresentações diferentes do que o que era corrente alguns anos atrás. Conectada à busca pelo novo, moderno e diferente, pouco a pouco, a “eternização” deste momento vem deixando o clássico estúdio para trás – e privilegiando cenários ao ar livre, buscando inspirações em trajes épicos, estilos musicais ou até mesmo em personagens de filmes, desenhos animados e quadrinhos. A busca é por uma maior identidade, por meio do sentimento que os uniu.
Com alguns anos de “estrada”, o fotógrafo e engenheiro civil Gustavo Quintela crê que é possível inovar na fotografia, torná-la tendência, fugir do lugar comum. Ele assegura, entretanto, que todos os casais são, em sua essência, diferentes entre si – e que isso deve ser respeitado. “Acho que na fotografia, como em qualquer outra arte, nossa mente deve estar sempre aberta ao novo e ser criativa. Lógico, dentro do bom senso”. Por mais que o figurino e locações sejam escolhas excêntricas, Quintela considera que estes ainda sejam detalhes menos relevantes. “O principal é o humor e a espontaneidade dos noivos que serão fotografados. O astral das pessoas envolvidas pode facilmente tornar o todo divertido. Ou monótono”, analisa.
Dos ensaios, o mais diferente foi realizado há poucos meses: os noivos, adeptos do rock ‘n’roll, decidiram que todos os elementos referentes ao casório teriam ícones referentes ao heavy metal. Às vezes, para fazer com que os protagonistas incorporem seus personagens fictícios, o fotógrafo lança mão de estratégias menos ortodoxas. “Lembro de uma vez que até comprei umas latinhas de cerveja para o noivo. Funcionou!”, ri.
Tamanho compromisso tem seu preço: “Meus finais de semana são sem dormir. Mil coisas podem dar errado. Fico na supervisão de tudo isso, e só me tranquilizo totalmente quando as fotos já estão devidamente salvas nos três sistemas de backup que possuímos. Nem gosto de pensar em perder fotos de um cartão de memória”. O foco, o entusiasmo e o fascínio permanecem. “O principal é a inspiração, e a atenção de não deixar escapar nenhum momento importante. Realmente uma loucura, mas satisfatória”.
A fotógrafa Walda Marques também atua na arte de eternizar momentos especiais. Ela iniciou sua trajetória por influência do pai e do padrinho; e desde então, registrou os passos de gerações de famílias. “Tenho trabalhos em que fotografei mães grávidas para, alguns anos depois, fotografar moças lindas, já nos seus 15 anos”, conta emocionada. Trabalhando há 25 anos nesse campo, ela cresceu profissionalmente em contato com as oficinas de Miguel Chikaoka, na Fotoativa. Ele a orientou definitivamente em seu caminho e na briga por um ideal. Hoje Walda tem muita consciência do que quer realizar em seus ensaios. “Acho sempre que o trabalho tem que trazer um grande envolvimento com a pessoa que vai ser fotografada. A sutileza é o ‘x’ da questão. Esse trabalho jamais pode ficar vulgar; o objetivo é a delicadeza. Procuro conhecer bem quem vou fotografar. Gosto dessa aproximação”, revela
Envolvida com a poética do retrato, ela conta que sua verdadeira afinidade vai contra a última moda de tomadas externas: “Gosto, amo fazer estúdio. Sei lá, fico mais à vontade! A produção é divertida. Normalmente já se tem uma história se desenrolando, então a brincadeira de fazer uma cena é muito legal”. Mesmo tendo suas predileções, outra proposta a realiza: “Quando consigo mudar o rumo e levar esses ensaios encomendados para uma galeria. Isso me fascina. Acho que é realmente eternizar!”. Na interrogação sobre outros lugares e outros padrões, a fotógrafa avalia que é no clássico que se obtém melhores resultados – embora tenha construído boas memórias fora do ateliê: “Adorei a experiência de quando maquiei e fotografei uma marajoara linda que casaria em casa. A Camilla Grello abriu as portas de sua futura residência e tornou cada detalhe do espaço algo visceral”, rememora. E confessa: “No externo, também é encantadora a cena. O inesperado te dá uma adrenalina; Fico com o coração apertado”.
Retratos despojados em meio à urbe realmente são inspiradores para os casais adeptos dos ensaios nos centros urbanos. A temática também encantou a fotógrafa Carol Marques. Apaixonada pela fotografia desde que ganhou uma câmera semiprofissional de presente do marido, Carol fez do talento descoberto a sua carreira. Especializada em ensaios cheios de personalidade, ela conta que é comum que os noivos a procurem quando estão abertos a várias possibilidades – mas também cheios de dúvidas e de ansiedade. Para converter isso em bons resultados, Marques procura criar um vínculo de confiança com os pombinhos. “Procuramos estabelecer uma sintonia, e tentamos alcançar a espontaneidade em uma conversa bem descontraída. Eles expõem suas ideias, suas fantasias, seus sonhos e suas emoções, e trazem ainda algumas indecisões. Cabe a nós direcionar, pôr em ordem as sugestões, as técnicas e os planejamentos, capturando a substância do casal”, explica. A inventividade, para Carol, também é fundamental: “Sempre tenho ideias para pôr em prática. Quando recebo clientes que se encaixam na proposta, eu lanço a inovação e o sucesso é garantido”, festeja.

Foto: Carol Marques
Quando o assunto é promover ensaios temáticos, os lugares e figurinos devem acompanhar a proposta. Dentre os projetos mais ousados que a fotógrafa realizou, ela elege um como o que a surpreendeu mais – e que também proporcionou a realização de um sonho. “Reproduzimos um casal da década de 20 nas ruas da Cidade Velha, em Belém. Quando o noivo me mostrou um carro de 1920, eu explodi de felicidade! Ficou lindo”, lembra. Carol Marques, aliás, é a única fotógrafa credenciada do Norte na categoria Street Wedding. No processo de amadurecimento dessa linguagem, a jovem realizou ensaios na Austrália com Everton Rosa, mestre mundialmente respeitado. Tamanhas técnicas trouxeram inovações para o mercado paraense, proporcionando mais confiança aos seus clientes para ir além do tradicional. Segundo ela, é na satisfação deles que o esforço se justifica. “Sinto-me poderosa diante dessa responsabilidade, pois a magia que envolve o resultado é revelada ao casal. Eles ficam tão realizados quanto nós, apesar de todo o peso projetado diante de tantas inovações e expectativas”.
Iniciada na fotografia graças a um curso no Curro Velho, Diva Nassar é apaixonada pelo seu trabalho, sobretudo pela autonomia que ele proporciona e pela possibilidade de conhecer diversas pessoas e lugares. Sobre seus ensaios diferenciados, ela acredita que o grande segredo é conseguir deixar os fotografados soltos o suficiente para posar sem constrangimento. “Eles devem estar confortáveis. Afinal, se estiverem incomodados com qualquer coisa, vai ficar visível nas suas expressões durante as fotos”. Diva revela que, assim como os temas dos registros são os mais diversos, o comportamento e o grau de envolvimento dos contratantes com a ideia também podem variar: “tem gente que vem com várias ideias, foto de referência... E também tem gente que não fala nada”, diverte-se. Dos projetos mais diferentes que já fez, ela traz consigo três especiais: “Um foi em Paranapiacaba, cidade perto de São Paulo que é conhecida pelos trens abandonados e pelo clima de cidade cinematográfica fantasmagórica. Outro foi em Burle Marx, um parque de São Paulo que tem as ruínas de uma mansão, um jardim na frente, e muitas árvores ao redor. Esse foi bom porque esse parque é menos frequentado, então não tivemos tanto problema com muitas pessoas passando atrás das fotos, por exemplo. O terceiro foi com um casal de descendentes de japoneses em uma chácara. As famílias fizeram tudo, desde a comida, até a decoração”, relembra. Nassar se orgulha de sua sorte quanto a não ir de encontro ao piegas: “Nunca me deparei com alguém ativamente ‘brega’. Sempre fiz o meu trabalho com liberdade estética e com muita responsabilidade, o que chega a tirar meu sono”, diz, entre a brincadeira e a sinceridade.
E quem procura por esse novo? Quem tem essa sede pela inovação, o que pode nos dizer? É o que Filipe Lâredo e Camila Numazawa, casados há dois anos, nos contam. Eles acreditam que o casamento simboliza o comprometimento de duas pessoas que se amam, e que querem se divertir e festejar essa decisão tão importante. A união dos dois começou inusitada desde o pedido de oficialização, feito por Camila, Filipe disse sim, sabendo há tempos do estilo decidido da namorada: “Estávamos deitados na cama assistindo a um filme, quando a Camila virou pra mim e disse que não esperaria muito tempo para colocar uma aliança no dedo”, conta Filipe. No final de semana seguinte, compraram os anéis. Divididos entre a mente aberta e as formalidades, o jovem casal optou por mesclar as opções: antes do dia do “sim”, fizeram um ensaio de locação externa. A experiência não poderia ter sido melhor.
A ideia surgiu devido à necessidade de colocar fotos no site criado para o evento, que contava a história do casal, apresentava seus padrinhos, revelava curiosidades e detalhes da festa... Tudo para que os amigos e familiares fossem saboreando junto à espera do evento. Para tais fotos, os noivos escolheram o estilo Trash the dress. “Para isso, seria necessário um ensaio bem legal e descolado, que não ficasse brega ou piegas. Foi então que surgiu a ideia de chamar a Diva, que é minha prima e fotógrafa profissional. Como ela é superligada nas tendências mais recentes, nos ofereceu esse ensaio como o seu presente de casamento”, relata Larêdo. Para que o ar místico e romântico desejado por ambos estivesse presente, o local escolhido foi a pulsante e encantadora Paranapiacaba, onde funcionava o centro operacional e de uma companhia de trens ingleses. Recentemente foi inaugurado um Museu Ferroviário no local, onde também há um cemitério de trens.
Para que tudo dê certo, é preciso ter precaução e paciência. “Existem questões que não podemos controlar – como o clima, por exemplo. Mas se tudo for bem organizado, principalmente pela equipe de produção, fica mais fácil para quem vai ser fotografado. O local tem que ter o mínimo de vínculo com o casal, representar algo para ele. Do contrário, corre o risco de, ao olhar as fotos, questionar quais motivos o levaram para aquele local”, pondera Filipe.
O clima de espontaneidade conta para que o ensaio seja de fato uma compilação de momentos do casal, diferenciando de um cenário armado. Para a então noiva, tal fator foi crucial para um resultado satisfatório. “Descontração! Como conhecíamos a fotógrafa, fazíamos brincadeiras, conversávamos, agíamos como se estivéssemos fazendo algo de comum. A cidade inteira parou para olhar, desejar felicidades, e até para fazer fotos conosco. Teve até uma menina que me desenhou enquanto eu andava pelas ruas”, sorri Camila.
Apesar da timidez, Larêdo conseguiu entrar no clima das fotos. Hoje, ambos trazem consigo uma lembrança positiva, que se estende a todos os queridos que os cercam: “esse ensaio é um dos momentos mais lindos do nosso relacionamento. Todo o ambiente estava perfeito naquele dia. Essa mensagem é retransmitida a nós a todo instante, uma vez que emolduramos algumas delas em nossa casa, assim como nas casas de nossos pais. E como todos somos seres sociais, é natural que compartilhemos essa felicidade com os amigos mais próximos, que normalmente percebem o carinho que sentimos um pelo outro. Tanto as fotos tiradas quanto tudo o que passamos naquele dia estão guardados em lugares especiais em nossos corações. Queríamos poder olhar para trás, para o momento que estivemos juntos numa estação de trem abandonada, e lembrar o quanto foi – e ainda é – especial o nosso amor”.
Assim sendo, eis que o amor e a modernidade entrelaçam as mãos e começam a caminhar juntos. As demonstrações de romantismo tomam formas diferentes, mas ainda se fazem presentes – em um pacto silencioso com a força de manter as coisas enraizadas. Os registros criados pelo homem têm a intenção de estabelecer um lugar na história. e transmitir uma mensagem para a posteridade. Com a fotografia não poderia ser diferente: ela faz com que as pessoas se conectem ao seu passado e fiquem conscientes de quem são. Os ensaios fotográficos pré-casamento – além de provar que duas pessoas que se amam são melhores juntas que sós – podem ser um registro dessa memória em construção. Mais ainda quando se encara a aventura de ousar – seja para compartilhar gostos ou personagens marcantes em suas histórias, seja pelo simples prazer de brincar e se divertir em duo. O melhor disso é que, por mais silenciosas que imagens como essas aparentem ser, há sempre muitos sorrisos e histórias sendo guardados (e contados) por elas.
