
Enquanto ele atendia a um telefonema da Elke Maravilha, eu analisava curiosa o cenário excêntrico ao meu redor, na companhia de uma cadelinha fofa com a qual dividia uma chaise com estampa de onça. O manequim preto que funciona como abajur contrasta com os vários objetos de inspiração retrô, no melhor estilo casa da vovó. Assim como o barulho do centro agitado de São Paulo que entra pela janela contrasta com o gostoso som da cortina de miçangas, que divide a sala e a cozinha do apartamento no edifício Copan.
Depois de uma breve observação, dei por mim. Como esperar menos da casa de Walério Araújo, este estilista pernambucano polêmico, diferente e que não tem medo de extrapolar na cota da originalidade?
Simpático, Walério abriu as portas de casa com um sorriso no rosto e logo me convidou para sentar. Tive o prazer de dividir o assento com Mazé [cujo nome é a junção de Maria e José, uma homenagem a seus pais], sua cadelinha meio Border Collie, meio vira-lata e que é celebridade na internet com diferentes looks. “Tem gente que me diz que segue a Mazé, mas ela não tem Instagram, então é no meu que posto as fotos dela”, diz Walério aos risos.
Na conversa, deu para perceber o quanto Walério é falante: conta muitas histórias, recorda suas origens, fala de sua numerosa família [ele tem oito irmãos], do início da vida em São Paulo como vendedor. Lembra sempre com muito carinho de Elke Maravilha e de outros amigos essenciais para alavancar sua carreira, de talento, inspirações. Ufa! Foi difícil seguir um roteiro com este pernambucano agitado, que contabiliza em seu portfólio clientes como Claudia Leitte e Sabrina Sato.
Me conta da Mazé, que veio logo me fazer companhia quando entrei. Ela faz o maior sucesso na internet, trabalhada nas melhores grifes, inclusive na do papai. Como essa brincadeira começou?
Eu tive uma cadela antes da Mazé que viveu oito anos e que só saía toda arrumada. Ela participou de várias matérias. Tive a ideia de repetir a história com a Mazé, mas ela é grande, então comecei a exagerar para ficar caricato mesmo. Acho que o mais engraçado é que não faço roupas especiais para ela, são todas peças que a gente vai adaptando. Até a Ivete [Sangalo] outro dia parou o trio e mandou um beijo para ela. (risos)
Vamos falar um pouco de origens? Você vem do Nordeste, que é uma região bastante peculiar, desperta curiosidade, alimenta o imaginário de muita gente que não a conhece e, às vezes, é até alvo de preconceito. O que você acha disso?
Acho que a gente vem com um certo peso para ocupar um lugar. Por exemplo, a Gaby [Amarantos], que é minha amiga querida, tinha todo aquele peso de ser "Beyoncé do Pará", que tinha que ser excêntrica, chamar atenção. Comigo também foi assim: fiquei conhecido na noite, fazia vestidos de drag queens, travestis. Trazia um diferencial no meu trabalho e sabia que as pessoas iam olhar, analisar. Algumas gostavam, outras não. É assim até hoje com todo artista, né? Mas preconceito acho que não sofri, não.


Ainda nas origens. Você vem de uma cidade bem pequena [Walério é natural de Lajedo], que não chega a ter 40 mil habitantes hoje, certo? Imagina na época que você saiu de lá. Você veio para São Paulo, imagino, guiado pelo sonho da cidade grande, por esse mito que é a maior cidade brasileira...
É uma cidade bastante pequena mesmo, onze horas da noite já não tem mais nada! Na verdade, vim para São Paulo por instinto, via as boates na televisão, essa coisa toda de moda que me interessa muito. Era muito novo, tinha 17 anos, não tinha noção de nada: perigo, violência, as dificuldades profissionais e pessoais. Quando vim pela primeira vez, fazia um curso de desenho de meio período e trabalhava numa loja de decorações de festa. Cheguei a voltar para Lajedo, mas tinha uma necessidade sempre maior de crescer, de liberdade e sabia que lá eu não ia conseguir nada disso. Então, vim para São Paulo de vez, fiquei desempregado, depois consegui um emprego de vendedor numa loja popular no comércio. Com a ajuda de um amigo, fui para a Rua São Caetano (conhecida em São Paulo como a “rua das noivas”) e depois para uma loja de tecidos finos na 25 de Março. Paralelo a isso, conheci a Elke. Além da visibilidade, conviver com ela me deu muita segurança porque pude desenvolver mais minha personalidade profissional, com a certeza de que existia público para as minhas criações.
Mas quando você veio tinha o sonho de se tornar um grande estilista ou só queria trabalhar com o que realmente gostava e poder viver disso?
Nunca tive essa pretensão. Acho que nem sabia exatamente o porquê de vir morar em São Paulo...
Você sabe que é uma exceção. Milhares de pessoas passam a vida no anonimato. Há quem diga que é sorte. Eu acho que tem mais a ver com talento.
As pessoas me perguntam qual é o segredo para ficar famoso. Ora, é trabalhar! Não adianta todo o talento do mundo se você não for competente, não tiver disciplina. O mais importante é o QI [quem indica], porque ninguém vai indicar uma porcaria, né? Você trabalha sério e as coisas vão se expandindo. Sempre trabalhei com gente de peso, grandes responsabilidades e nunca deixei ninguém na mão. E também nunca deixei de viver por isso. Principalmente no Carnaval, a gente bebe e dança antes, durante e depois do trabalho (risos).
Seu talento e paixão pela moda são hereditários. Você é de uma família de costureiras e bordadeiras, o que, inclusive, são atividades tradicionais no Nordeste. Pode ser clichê e até óbvio, mas isso influenciou você? Influencia até hoje?
Acho que influenciou, sim. Na minha família, todas as mulheres costuravam, faziam enxovais inteiros, a maioria tinha máquina de costura em casa. Eu sempre gostei de desenhar e, com as minhas irmãs, fazia almofada, toalhas de crochê, pintava. E o mais legal, eu acho, é que não caí em um regionalismo. Sempre misturei muito as influências que trazia de lá com o que me deparava no mundo. De lá, acho que trago muito o bordado manual, que eu amo fazer, é uma terapia!
A carreira, a mudança de cidade, a homossexualidade, tudo isso foi sempre bem aceito pela sua família?
Acho que eles nunca tiveram o que falar de mim. Sempre ganhei meu dinheiro com meu trabalho honesto, sendo respeitado, querido. Isso desde Lajedo. Meus pais chegavam em casa e encontravam a high society, a mulher do prefeito, as donas das escolas particulares que me chamavam para desenhar uniforme... (risos). Quanto a ser homossexual, nunca precisei me assumir para a família. Eu era excêntrico, diferente dos meus irmãos, aquilo ficava claro. Meu pai, infelizmente, já morreu, mas minha mãe, hoje, quando vou visitá-la, me pergunta se vou com o namorado, como deve arrumar o quarto.
Recentemente, você fechou a loja que tinha aqui no Copan, certo?
Isso. Foram sete anos muito bons, de muita visibilidade, tinha um espaço bom para receber produtores, clientes, fazer gravações, fotos. O problema é que abri a loja muito mais por pressões dos outros do que desejo meu mesmo, até porque nunca tive pronta entrega. E manter uma loja é muito difícil também, além de ser caro e envolver uma burocracia inacreditável. Já tinha dois anos que queria fechar e não conseguia, tem que tirar as coisas, resolver problemas. Além disso, eu ficava muito preso, não conseguia viajar, era cansativo demais, não tinha mais tempo para mim. Agora, só estou atendendo com hora marcada.
Nunca é demais perguntar. Quais são suas maiores influências?
Ah, pelas temáticas dos meus desfiles, acho que é cotidiano, o comportamento, a convivência com as pessoas. Mudo muito, radicalizo, mas acho que faço tudo em cima do ser humano. Exploro muita cultura, como a minha coleção passada, que foi sobre a África, a Grécia e a Índia; comportamentos, um visual e aí misturo tudo no meu universo e no das pessoas que gostam do meu trabalho. Acho que eu já tenho uma identidade muito bem formada.
Todo mundo fala que você é polêmico. Por quê? Você se vê assim? O que eu acho é que você é diferente, original e dono de uma autenticidade difícil de ver num mundo que cada vez mais parece uma cópia de alguma coisa que a gente já viu antes...
Hoje, acho que, apesar de o mundo ser super democrático, as pessoas são medrosas, não mudam, se vestem todas iguais. Parece que buscam refúgios para não se soltar mais. Eu me acho descarado! E olha que já me limpei bastante desde que cheguei aqui. Hoje já não uso mais cabelão, me acho bem melhor careca. Gosto de preto. Ponho um salto e aproveito a roupa do dia para sair à noite. Se sou polêmico? Não, me acho ousado.
Hoje os estilistas estão por demais discretos, parece que têm medo de se mostrar realmente, medo de que o pessoal se sobreponha ao profissional. Mas você parece não ter receio disso porque a autenticidade, a originalidade estão em ti, na tua imagem.
Antes, o estilista tinha que fazer o lord, estar de terno nas festas. Eu nunca fui assim. Uso salto alto! Tenho muitos fãs e seguidores nas redes sociais que gostam de mim porque acham que eu bato de frente, que talvez quisessem ser como eu, mas não têm a oportunidade, por causa de idade, de estar preso a alguma situação, de não ser independente. Tem quem me considere arrogante, mas acho que sou é imponente. Arrogante ninguém tem que ser, mas imponência não é defeito, é uma forma de se apresentar.
Pois é, você tem uma carreira profissional consolidada, mas a tua pessoa conquistou um espaço incrível. Nessa entrevista, por exemplo, falamos pouco de moda mesmo...
É, são coisas totalmente diferentes, mas que se completam. Minhas clientes não querem só falar de moda, elas chegam aqui e ficam à vontade, se abrem, conversam. Acho que conquisto a confiança delas com as roupas, que caem muito bem, que ficam exatamente como esperavam, e aí o relacionamento vai se expandindo.
