A intimidade com o instrumento começou em Santarém, sua terra natal. Começou observando o pai tocando e certa vez, pegou o violão danificado e o consertou. A cena é simbólica: o músico atribui à esse momento o início de uma outra vida. Ele diz que se não fosse a música, seria moleque de rua. O encantamento com o violão foi tanto que Sebastião diz que, quando teve contato com o instrumento, ficou hipnotizado.
Já adolescente e com habilidosa desenvoltura, chegou a Belém para tocar na banda “Os Mocorongas”. Era um projeto de banda de baile, que tocava em festas noturnas da sociedade paraense. O violonista já era requisitado e o próprio público pedia que ele tocasse clássicos de Shubert e Chopin, transcritos para violão, por exemplo. Aprendeu de tanto escutá-los já que sua formação foi basicamente movida pela forte curiosidade e pressa em aprender a tocar, tanto que quando se matriculou em um curso regular de aulas de violão, saiu após a terceira aula; o curso começara com aulas teóricas. Depois de entendido, e não mais inconformado, voltou para as aulas com o professor João Fona.
Não gostava de teoria, mas sabia que era a base do que queria fazer, do que já fazia empiricamente. A partir daí, a carreira foi sendo moldada com grandes professores no Brasil e na Europa. Foi professor no Conservatório Carlos Gomes no final da década de 1960 e considera a docência uma outra escola. Tocou com inúmeros artistas da música brasileira, como Gilson Peranzzetta, Hermeto Paschoal, Sivuca, Nego Nelson, Salomão Habib, e compôs com tantos outros. Tem mais de 70 discos lançados. Haja fôlego para compor! Para Sebastião, no entanto, o ofício é rotina: ao acordar, já pega o violão para as primeiras notas matinais.
Aos 72 anos, hoje um indiscutível expoente internacional da música instrumental, Sebastião tem reconhecimento exatamente pela dedicação ao que faz. Como ele mesmo define, “vive enfiado no violão”. De tantos prêmios e discos, já nem recorda todos. O que compreende, acima de tudo, é que para compor e tocar é preciso antes sentir.
Em abril é inverno grande. Nasci no rio Surubi, dentro d’água. A casa que a gente morava tinha uma maromba, um assoalho, e estava cheia de água. Tinha uns dois metros. E minha mãe estava chegando e nasci ali mesmo. Ela queria me ter em Santarém, mas fiquei por lá. As pessoas dizem que nasci em Alenquer, mas digo que nasci no Surubi, nunca neguei. Meu pai que me registrou lá, mas me sinto santareno. Se eu tivesse nascido em Alenquer, seria outra coisa. Era uma lancha a vapor que se chamava “Marilita”, e o barco chegou e aconteceu... o pessoal de Alenquer faz uma confusão, eles dizem que eu nasci lá, mas fui conhecer a cidade com 12 anos de idade.
O senhor começou a tocar violão muito cedo, ainda criança. Como foi esse início com a música e com o instrumento? O que sentia?
A verdade é que a música me acompanha desde que me entendo como gente. Foi tipo hipnotismo, lá pelos 9, 10 anos. Tive tudo para ser um bom moleque de rua, mas ela foi mais forte. Em Santarém,quando criança, a gente ficava na rua, ia para praia... Saía de casa sete da manhã e voltava sete da noite. Meu pai ficava bravo, me esperando com um cinturão. Não gostava muito de ir para a escola, gostava mesmo era da rua. Mas quando me liguei na música, fiquei hipnotizado, esqueci da rua. Meu primeiro contato com o violão foi com o do meu pai. Tinha um pessoal que ia pra lá pra casa beber cachaça, cantar e tocar. Aquelas coisas antigas... “a minha vida era um palco iluminado, vivia vestido de dourado” [canta Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa]. Eu sempre estava lá, atento ao violão. E o que aconteceu? Fiquei hipnotizado mesmo! Certa vez, o violão ficou largado, pegou muito sol e a madeira se abriu. A parte da frente descolou. Eu, curioso, fui cortando a madeira pela parte do meio, tipo assim, para segurar as duas partes, para fazer tipo um gancho para colar o violão. Botei as cordas direitinho. Meu pai viu aquilo e resolveu comprar um outro violão e me deu. Eu gostava muito, mas meu pai tocava pouco. Foi quando ele me botou na aula de violão com seu João Fona, em Santarém. Depois da primeira aula, ele perguntou como eu queria aprender. Eu achava que se fosse aprender logo, não precisava de professor. Fui para três aulas e, ao invés de me dar o violão, já que eu era louco pelo instrumento, ele começou com aulas teóricas, falando que a música serve para manifestar aspectos da alma por meio do som. Mas eu já queria reconhecer as notas musicais. Com isso,na terceira aula eu parei de ir, por conta própria. Daí meu pai chegou e perguntou o que tinha acontecido. Disse que já queria o violão, não teoria.
E como a música foi se transformando em ofício? A partir de que momento o senhor decidiu que ia seguir o caminho de instrumentista?
Ainda criança, já tocava em Santarém ganhando algum troco no conjunto “Os Mocorongos”, cujo diretor era o senhor Mimi Paixão. Era um grupo de baile aqui da cidade, de adultos. Na época, eles precisavam de violonista, eu era moleque metido, fui tocar com eles. E ainda ganhava um ‘cachêzinho’ (sic). Me davam qualquer 10 mil réis e estava bom pra caramba! Depois vim para Belém, já com 16 anos, também tocar nos “Mocorongos” da capital, com Gelmirez Mello e Silva, fui tocar no grupo dele, de estudantes. Já tinha 16 anos. Assim, consegui partir para Belém, em 1959. Um professor me viu tocando clássicos como Chopin, Schubert, e disse: “você também toca clássicos, não sabia”. E eu respondi que sim. Foi quando, nos dias de baile, comecei também a me apresentar solo. Parava o baile no meio e eu tocava transcrições do piano para violão. Também tocava já o repertório do Dilermando Reis, um expoente do violão, do chorinho. Prossegui estudando e tocando com professor Ribamar, teoria musical, mas também as notas. Era isso que eu queria. E segui com o professor Drago. Nesse momento, já sabia que era músico.
Em 1964 o senhor foi estudar na Europa. Como foi esse período?
A Europa foi o terceiro passo em minha vida, já tinha passado pela mão do Professor Othon Saleiro, no Rio de Janeiro. Foi muito importante porque além de conhecimento, fui estudar com um dos maiores mestres da época, o espanhol Emilio Pujol. Isso me deu um status, tive a honra de estar participando com alguns concertistas, tomando aulas especiais, master class. Tenho até hoje uma carta do Emilio, escrevendo para o governo do Brasil sobre mim... isso aos 21, 22 anos.
Já em Belém, o senhor foi professor no Conservatório Carlos Gomes. De que forma essa experiência influenciou sua carreira, como foi esse momento?
A experiência como professor no conservatório foi muito boa, pois ensinando a gente aprende muito. Violão é o instrumento para o qual sempre me dediquei, então já tinha conhecimento bastante amplo, tocava peças, clássicos, um pouco de tudo, era virado.
O senhor tem muitas parcerias com jovens agora.
Sim, muitas... Vi meninos com cinco anos de idade e hoje tocam “absurdo”! Henrique Neto, por exemplo. São muito talentosos. O Sérgio Abalos foi maravilhoso. Estava encolhido em Santarém e ele chegou e começamos a tocar juntos em 2009.
O senhor já lançou mais de 50 discos. Como é a sua maneira de compor? O senhor tem alguma inspiração especial ou há uma regularidade quanto à produção musical?
Agora já são mais de 70 discos. É assim: pego o violão, começo a dedilhar. Todos os dias, antes ou depois do café da manhã, pego no meu violão já caminhando pelo mundo musical, é como se fosse um ofício. A música vai surgindo, de alguma coisa que sinto que posso prosseguir. A música tem muito disso, você começa e depois tem que sentir. Para. Outras você começa e vai... Toda manhã, tenho esse tipo de prática. Depois, eu tenho que tentar gravar. Mas é uma prática diária. Não é que seja fácil, é gratificante. São sete notas musicais, então, para você fazer alguma coisa que seja mais ou menos boa, elas têm de virar um mundo pra você; se não se faz nada. É uma sequência, uma lógica. Tem que ter princípio, meio e fim. Você sente e vai fazendo....
