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Solidão sem Melancolia

Avesso a qualquer rótulo que possa cercear a arte ou a própria vida, J. R. Duran é um homem inquieto. Apesar de ser um dos fotógrafos mais requisitados do país, ele sempre fez questão, durante toda a carreira, de não limitar a sua expressão à fotografia. Ela é preservada como um dos caminhos possíveis, dentre tantos trilhados pelo olhar particular que ele lança sobre o mundo.

Conhecido no Brasil por ensaios de moda e retratos de beldades para revistas masculinas, Josep Ruaix Duran nasceu em Barcelona, em 1952. Veio para cá na década de 1970, aos 18 anos, por motivos familiares. Àquela altura, devido à tensão do momento político que a Espanha atravessava, o Brasil representava para o jovem catalão a mesma coisa que, segundo ele, depois de tantos anos, representa ainda hoje: “um lugar de muito sol, de muito calor, de gente muito bonita.”

Em São Paulo, onde fixou residência, Duran estudou Comunicação na Faculdade Anhembi e deu os primeiros passos profissionais como assistente do fotógrafo Marcel Giró. O estúdio próprio só foi montado no final da década de 1970, quando ele passou a trabalhar com moda e publicidade - ramos que o tornaram nacionalmente conhecido. Em mais de trinta anos de carreira, o estrangeiro foi agraciado com dezenas de prêmios de fotografia e concebeu ensaios sensuais de celebridades como Xuxa, Cláudia Raia, Maitê Proença e Adriane Galisteu para a revista ‘Playboy’.

Ao ser questionado sobre a sua trajetória profissional, J. R. Duran opta por celebrar o presente: “gostaria mesmo de falar do meu último livro.” Mas, admite: “trilhei os caminhos que eu achava que tinha que trilhar para chegar aonde queria. Não foi fácil, mas percebo que também não foi tão complicado assim.”

O referido “último livro” tem o título ‘Cadernos de Viagem’ e foi publicado em 2012 pela Editora Benvirá. Ao contrário do que se espera do trabalho de um retratista de sucesso, a publicação não inclui nenhuma fotografia. Consiste em um diário de viagem ilustrado por aquarelas, que registra a passagem de J. R. Duran por 54 quartos de hotéis em 35 países.

Faceta pouco conhecida do fotógrafo catalão, pintar é uma atividade antiga, na qual ele investiu em aperfeiçoamento ao longo dos anos. “Não é que eu seja um pintor, mas um ilustrador, talvez. Quando fazia as minhas aquarelas, os meus diários, eu não pensava que esse material poderia um dia ser publicado”, confessa. O conteúdo do livro foi produzido no período de três anos, mais precisamente, de janeiro de 2008 a janeiro de 2011, em cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Itu, Pequim e Johannesburgo.

Sobre o sentimento de solidão, o “estou a zero” que uma noite de hotel, como diz a canção de Caetano Veloso, pode despertar, Duran considera um aspecto positivo desse trabalho. Longe de qualquer melancolia, ele reconhece a sua estada nesses lugares e os experimentos que resultaram no livro como uma busca solitária por compreender melhor o universo ao seu redor. “Em viagens, existem aqueles momentos mortos. Por exemplo, eu acordo às seis horas da manhã, mas o meu compromisso é às nove, então, em vez de ir ver televisão, transformo a espera em literatura e pinto o que eu não posso capturar com a câmera”, explica.

Para esse artista multifacetado, é clara a distinção entre as formas de expressão artística com as quais trabalha. “A fotografia diz muita coisa, mas é uma obra em aberto. A escrita tem um desdobramento mais profundo. Enquanto a fotografia é mais direta, mais impactante, o texto conduz a labirintos que escondem muitas coisas”, garante.

Ainda assim, apesar das diferenças, as experiências se entrecruzam. Afinal, as viagens que provocaram a produção literária e as aquarelas só foram possíveis graças à fotografia, isto é, surgiram devido aos trabalhos fotográficos que Duran precisou realizar naqueles lugares. Este, segundo ele, foi mais um ponto a favor, porque “quando você viaja a trabalho, a imersão no lugar é mais profunda.”

Em texto disponível no site oficial de J. R. Duran - jrduran.com.br, o jornalista Thales Guaracy, editor do ‘Caderno de Viagens’, descreve a publicação como “um livro impecável, único, de um talento brasileiro”. A respeito disso, Duran admite que, depois de tanto tempo vivendo no Brasil, foi impossível não ser absorvido pela força e personalidade da cultura do país. “Hoje, quando eu volto para a minha terra, eu sou um estrangeiro em Barcelona. Acho que eu devo ser mais brasileiro do que qualquer outra coisa. Não tem como não ser”, reconhece.

Fora do âmbito pessoal, ao medir a influência do Brasil em sua trajetória profissional, Duran cita o exemplo de um paraense, o fotógrafo Luiz Braga. “Certa vez, eu fui a Belém e, quando comecei a fotografar, percebi que todas as fotos pareciam ser dele, porque a luz é única em Belém. Você começa a sentir como se estivesse pisando em um território que pertence ao Luiz Braga, o que é verdade. Todo mundo absorve impressões do lugar onde mora.”

Referências

Quando está às voltas com a concepção de um novo trabalho, seja na fotografia ou na literatura, J. R. Duran procura deixar de lado todas as influências externas, de modo a perseguir, dentro de si, um estilo próprio e livre. “Nessa fase, tento ler somente escritores neutros, que não tenham um estilo bem marcado. Leio biografias, por exemplo”, conta. Tudo para não ser, segundo as suas próprias palavras, “contaminado”.

Quando não está trabalhando, porém, ele se considera um dedicado apreciador de arte. “As influências que eu tenho se misturam, entre fotógrafos, cineastas e pintores. Por exemplo, os pintores do século XIX, os cineastas franceses da Nouvelle Vague e muitos fotógrafos. Se você der uma olhada em minha estante de livros, tem de tudo”, observa. “Eu não posso dizer um nome, dois nomes, porque eu vou absorvendo pedacinhos de cada um”, continua ele, que se diz interessado não só na produção, mas na história de vida dos artistas que admira. “No ano passado, eu estava lendo sobre Caravaggio e cheguei a fazer uma viagem para Malta só para contemplar ao vivo uma de suas telas, a ‘A Decapitação de São João Batista’. Mesmo assim, se você procurar a luz de Caravaggio nas minhas fotos, não vai encontrar”, pondera.

Já o fascínio pela literatura, J. R. Duran atribui, em grande parte, a dois autores franceses, Michel de Montaigne e Marcel Proust. “Os ensaios de Montaigne têm tudo a ver com fotografia, com a busca da melhor forma de enxergar as coisas, de trazer o mundo para dentro dos olhos”, poetiza. “No ano passado, eu fui ao Castelo de Montaigne e até deitei na cama dele, quando ninguém estava olhando!”, conta, bem-humorado, em mais uma referência ao inquieto viajante que abriga dentro de si.

Aliás, a respeito da influência de Proust, quando declara que existem coisas que a câmera não é capaz de capturar, Duran poderia citar o seguinte trecho de ‘Du côté de chez Swann’, em tradução de Mário Sérgio Conti: “quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, solitários, mais frágeis mas mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor restam ainda por muito tempo, como almas, a recordar, a aguardar, a esperar, sobre a ruína de todo o resto, a carregar sem vergar, sobre a sua gotinha quase impalpável, o edifício imenso da lembrança.”

Ainda que muitos intelectuais reconheçam não ser possível determinar a função principal da arte ou o motivo principal do trabalho do artista, em J. R. Duran o motor parece ser a celebração do mundo e de todas as possibilidades que estão disponíveis, a todo momento, para ele. Eis de onde vem, por exemplo, o interesse por Montaigne e Proust. “São as duas melhores leituras para compreender o mundo”, sentencia, com seu português carregado de sotaque catalão.